
a review by user106549
7 years ago·Feb 19, 2019

a review by user106549
7 years ago·Feb 19, 2019
Leitor, para poder ter pleno entendimento da análise, deverá ter conhecimento razoável do inglês. Caso não possua, recorra a um tradutor online ou afins.
Akiyuki Shinbo (Sinbo/Shinbou, trate da maneira que bem entender) não é o diretor criativo de Monogatari Series, quanto menos de Kizumonogatari. Esta figura serve o papel de mentor do estúdio, sendo assim sempre listado como diretor-geral/diretor. Para mais informações, por favor, pesquise a respeito.
Esta é uma análise de posicionamento empírico. Relações pessoais com crenças religiosas ou posicionamentos políticos-sociais são irrelevantes.
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Each and every chapter right through to Part III: Reiketsu will have its own highlights, but if possible, once you’ve seen them all, I hope you will judge them all as the single work known as Kizumonogatari.
– Akiyuki, Shinbo
O mestre mandou, assim faremos. Esta é uma análise não só de Reiketsu, mas, de todas as três partes de Kizumonogatari.
Desde o lançamento do anime de Bakemonogatari em 2009, muitos leitores do material original foram contra os métodos não tão fiéis de Tatsuya Oishi — em oposição a uma futura fidedignidade de Itamura e a aclamada novel —. Oishi apresentou ambiciosidade em seus trabalhos como diretor mesmo quando encarregado de pouco material, como podemos observar na icônica marca deixada na opening de Pani Poni Dash ou em alguns episódios de Tsukuyomi-Moon Phase e Hidamari Sketch. Em sua estreia como diretor de série (2009) não poderia ter sido diferente. Oishi manteve sua grande identidade, enxergou a novel de NisiOisin de sua própria maneira e assim marcou a história da indústria com uma idiossincrasia jamais vista antes.
Grandes nomes como Oshii Mamoru e Isao Takahata sempre operaram com adaptações, porém, jamais zelaram ao extremo pelo que os títulos construíram originalmente. Idealizaram de suas próprias formas como as obras seriam e obtiveram sucesso nisso. Ser fidedigno ou original em uma adaptação é algo que em si não tem valor, pois, o seu valor apenas surge quando é executado. Ou seja, como foi feito; a eficiência do resultado dessa aplicação.
Realocação de Veículos Narrativos
...we wanted to make a film that would enable the audience to empathize with Koyomi and experience the events from his point of view. In concrete terms, we cut pretty much all of his monologues from the script.
...I was basically breaking down Nisio-san’s writing style in my own way, and giving it form…and this is what we ended up with.
– Tatsuwa, Oishi
São apresentados quatro minutos do protagonista caminhando através de um edifício, com uma música que aos poucos quebra sua sutileza, completamente cercado pelo mistério e um pânico contido. Então, temos uma grande quebra desta inércia quando subitamente Araragi explode em chamas, gritando desesperadamente. Com sua queda, o silêncio retorna, apenas a sonoplastia causada pelo personagem é mantida. Novamente, a música surge sutilmente, intercala com um súbito silêncio e ao rufar de um instrumento o título do filme aparece.

Esses quase 7 minutos iniciais sintetizam minuciosamente qual será o modus operandi do filme e sua objetivação reflexiva, (entrarei em detalhes posteriormente).
Agora, por que os oito minutos iniciais não necessitam de falas? Como são reproduzidos inúmeros diálogos e monólogos em curtos espaços de tempo? É justamente essa uma das maiores ciências de Tatsuya Oishi, a plena exploração de veículos audiovisuais para arquitetar suas obras, assumindo funções narrativas e analógicas. Logo no início pode-se evidenciar essa técnica.
Uma nova inércia prevalesse após os créditos iniciais, tendo sua quebra realizada por um forte vento que atinge o local, a saia da Hanekawa erguida e um momento vergonhoso para ambos. Contudo, nenhuma conversa, explicação ou clássicos solilóquios da franquia é utilizado. Podemos compreender o ocorrido e o sentimento vigente somente através de mecanismos indiretos.
Representa o forte vento

Analogia ao fato da Hanekawa ter sido despida

Indicativo de onde ele está olhando e de sua calorosa sensação

O carro atravessa a cena, freia bruscamente e bate. Referenciando a vergonha e desonestidade de Araragi

Ao longo do anime ocorrem diversas outras aplicações desses recursos para todos os âmbitos, possibilitando que uma eficiente dinâmica emerja, substituindo a necessidade de demais mecanismos convencionais.
Tipografia
Outro fator fundamental introduzido pelo diretor, exerce função de proximidade com o autor ao explorar a escrita, quando, também, une sua experiência com esta técnica para criar identidade. Pode-se dizer que é o vínculo de união de duas figuras icônicas.
Atua como um amplo veículo de construção durante o filme, seja na descrição de sentimentos e objetivações ou na pura estilização da cena.



Três linguagens diferentes compõem a tipografia de Kizu. O francês, que entra em conformidade com as origens no cinema gálico. O inglês, que compõe a flexibilidade do método de comunicação. E, obviamente, o japonês, usando seus múltiplos alfabetos e interpretações.
É um dos artifícios constituintes da citada anteriormente "síntese minuciosa" na introdução.



Estrutura de Diálogos
Herança de sua série e marca registrada de NisiOisin. Excelentes conversações que não se detém a simplórias composições de cena. Ainda que haja uma notável diminuição no conteúdo e constância das mesmas em comparação aos títulos antecessores. Tal fato se deve a um aumento na eficácia dos veículos audiovisuais antes mencionada, que permitiu serem realizados de maneira enxuta.
Durante os diálogos constantemente a câmera alterna seu enquadramento ou percorre a ambientação. A cenografia, tipografia e a música trabalham conjuntamente a interação dos personagens. Tal-qualmente, exprime com riqueza sua excêntrica narrativa e personagens idiossincráticos.
Moralidade
Em uma visão de um país moderno com a moral degenerada, sob a sombra de uma desilusão passada, é onde Kizumonogatari fomenta sua sociedade.
Naquela inicial citação a respeito de uma "minuciosa síntese" (novamente), observa-se o sumário de uma larga crítica social. A gloriosa luz do sol que adorna a bandeira nipônica expulsa a sua cultura e incendeia sua moral. O Estado não é capaz de sobreviver ao enorme baque que sofreu, é necessário o apoio de uma nova ética.
Não entrarei em mais detalhes quanto a esse ocorrido, deixo a você, leitor, ter sua própria interpretação a partir desse raciocínio.
Tal como é dito em alguns frames, esta é a estória de uma tragédia, mas, não somente dos protagonistas, é também a tragédia do século XX que recaiu sobre a sociedade japonesa; é a trágica natureza na qual a compaixão é delimitada a benevolência do mais forte sobre o oprimido; a trágica degradação da moral budista que regia os japoneses.
Ao longo dos séculos, a virtude budista, dentre outras doutrinas, foi uma das principais pilastras da moral nipônica, entretanto, após a grande queda de 40' a sociedade japonesa se reergue por intermédio de influências ocidentais, aderindo a elementos da moral judaico-cristã e da cultura hespéria. Perdendo, nesse processo, muitas de suas raízes. É sob esse quadro que Oishi enxerga o Japão contemporâneo e é aonde ele baseia muita da reflexão da obra. A qual se estende por visões do âmago humano e suas leis naturais.
"Chegou hora dos atletas finalistas japoneses se posicionarem. Eles resistiram a muitas tribulações em seu caminho até a glória. E agora, a juventude do Japão intensifica, cheia de orgulho. Olhando para trás, Tóquio deveria ter realizado os Jogos Olímpicos de 1940. Mas, os conflitos crescentes acabaram com muitos sonhos. Cinco anos antes, os atletas da competição foram decididos em Tóquio. E, ao longo dos próximos cinco anos, todos os seus esforços levaram a este momento..."
– 56 ~ 57 minutos
Enfim, vários outros exemplos poderiam ser colocados aqui. As metáforas de Kizumonogatari são constantes e muito bem aplicadas a suma composição. Embora não sejam a vanguarda nessa temática, sem dúvidas são um enorme destaque.
Trabalho Visual
O ponto proeminente desta obra, o que faz dela o sui genris estético da década.
A maior adversidade que a Shaft enfrenta em suas produções é ligada a uma má administração do estúdio, afetando diretamente seus cronogramas. Um vilão que impede ilustres artistas de atingir todo o seu potencial. No entanto, uma realidade que foi revertida em Kizumonogatari, assegurando essa grandiosa produção. Oishi teve a sua disposição toda a staff principal do estúdio, tal-qualmente inúmeros contatos exteriores de renome. Podendo serem citados: os irmãos Yoshinari, Takayuki Aizu, Hiroki (Taiki) Konno, Gen'ichirou Abe, Ryo Imamura, Shin'ya Takano, Nozomu Abe, Yota Tsuruoka, Hideyuki Morioka... Igualmente, 7 longos anos de dedicação, sem prazos apertados (à parte de que ocorreram problemas de produção, fazendo o filme ser adiado por anos).
Oishi abandona as clássicas ambientações absurdistas de Bake para focar em suas técnicas de 3D e fotorrealismo, um diferencial notável entre as abordagens, visto que uma é essencialmente surrealista, enquanto a outra centraliza uma harmônia entre o verossímil e o ficcional. Contudo, que não deixam de ser semelhantes, pois, muitas das abordagens de Kizu já estavam presentes em Bake. Em outras palavras, é uma masterização de ideias menos enfatizadas no passado.

Alvo de controvérsias devido à aplicações mal-acabadas

e 2D e 3D destoantes.

Entretanto, em suma, a animação é excepcional, refina técnicas defasadas de 3D, insere outras jamais utilizadas na animeografia, possui storyboard complexo e mantém alto nível de detalhamento, fluidez e comprimento de sakugas.
Gen'ichirou AbeKou YoshinariYuuya Geshi(?)(?)Kou YoshinariVale ressaltar uma consistente harmonia entre as animações, predominando sobre os tropeços exemplificados acima, por mérito de acabamentos digitais e manipulações de iluminação. O que leva ao próximo tópico:
Mesmo tendo tanto tempo passado desde a inserção da digitalização na animação nipônica, grossas barreiras ainda impedem sua evolução na área de CG. Na década de 10' já se pode averiguar um crescimento progressivo de iniciativas no âmbito, apesar da evidente defasagem, dentre essas, Kizumonogatari ganha bastante destaque.
A diferença de texturas entre o 2D e o 3D é atenuada por uma aproximação das tonalidades, então usada para construir uma dicotomia visual. Finalizando-a com efeitos digitais de filtros e iluminação. Proporcionando um aspecto nunca realizado em animes.

Mais um ponto de saliência. O trabalho de cores é empregado com excelência para agir em conjunto com as técnicas de animação e veículos narrativos, fazendo uso de supersaturação, destacamento de cores, contrastes harmoniosos e diversas combinações alternativas em um mesmo frame sem se tornar poluído ou mal elaborado. Desta forma, finalizando a construção de uma ilustre iconografia.
Dualidade alegórica que retrata as temáticas e objetivações do filme. Seja o vampirismo, a moral, a tragédia, a lei natural, as inter-relações ou mesmo a pura e bela estilização.
Ajuda a movimentar o sentimento vigente e, de novo, atua como "veículo visual-narrativo". Ao decorrer de Tekketsu-hen há uma ênfase no uso de filtros e paletas avermelhadas, enquanto em Nekketsu-hen, de pretas e azuladas. Gera uma múltipla função do tão ressaltado "noir", que significa preto e é também um gênero narrativo enraizado na trilogia. Todavia, é algo presente nos três filmes.
De modo igual, a luz e sombra operam nesses papéis:

Holofotes desligados

Holofotes ligados

Trabalho Sonoro
Por trás de toda essa estrutura não poderia haver simplórias theme OSTs, seu design e direção de som se demonstram tão competentes quanto os demais âmbitos. A trilha apresenta identidade, consegue se adequar dentro das diversas situações emergentes e intensificar a atmosfera.
Assim como a tipografia, a música não utiliza meramente uma linguagem, a mesma gama de línguas encontra-se aqui e exercendo um cargo semelhante. Sabe quando se calar e quando agir. A ausência e progressão da trilha mostra-se um fator essencial na atmosfera das cenas.
Libido
O erotismo está presente nas mídias desde a década de 60', na cinematografia. No mesmo período, na Itália, já eram produzidas as comédias sexuais, que veriam a ganhar certa fama.
A libido como artifício ou núcleo narrativo já é amplamente desenvolvida na arte e tem extensos horizontes a serem explorados. Apesar disso, tal como quaisquer outros gêneros e temáticas, o erotismo pode ser executado de maneira frívola e simplória, tendo como uma de suas populares manifestações o "fanservice".
Todavia, esse não é o caso de Kizumonogatari.
A despeito de esse não ser um dos destaques da obra e serem cometidos alguns deslizes em seu desenvolvimento, a exemplo esta cena estapafúrdia:
A Famigerada
A cena especial de Rekketsu-hen, o quase ato sexual que Araragi e Hanekawa tem. Uma cena de humor e erotismo muito bem arquitetados.
A premissa é iniciada em um bizarro pedido de Araragi de acariciar os seios de Hanekawa. Logo o anime permite o desencadear cômico em um frame caricato.

Então, uma sequência de respostas inesperadas surgem para embasar a atmosfera. Nenhum dos dois consegue se olhar diretamente. A euforia consome Araragi, e Hanekawa, a vergonha.
Ela se movimenta em um cauteloso ritmo. A câmera se posiciona em prol da tensão e da potencialização da libido. O tecido de sua roupa se comporta de maneira provocante por meio de uma boa animação. Um incontrolável silêncio perdura até que ambos se aproximam com insegurança. A dublagem assume um tom íntimo. A tensão apenas cresce. Novos pedidos grotescos surgem.

A estrutura cômica e libidinosa da cena é ótima, igualmente sua síntese audiovisual, e como é justamente esse o seu intento, faz desta uma cena muito funcional.
Trabalho de Câmera
É possível notar uma influente cinematografia no comportamento da câmera, ritmos e angulações atípicas percorrem toda a mise en scène, valorizando a distinta arquitetura do filme.
Enquadramentos fechados intercalam para abertos sem recear, as transições demonstram dinamismo e técnicas de fluxo aéreo, vezes mescladas com sons de helicóptero, produzem distinção.




Relações Interpessoais
Um detalhe que poderia ser ignorado, porém, que devido a um enfoque no drama não poderá.
Os personagens rapidamente ganham intimidade uns com os outros, sem um desenvolvimento concreto ou apropriada força motriz, levando a um semblante artificial. Essa situação em nada interfere no amplo desempenho, mas, uma compostura diferente deveria ter sido tomada para que a interação e dramatização se tornassem razoáveis.
Resolução Problemática
Súbitas transições de cena não se mostraram um real obstáculo dentro do enredo, no entanto, desfechos fugazes como os das batalhas de Dramaturgy, Episode e Guillotine Cutter soaram como algo impróprio e provam-se presentes em alguns outros momentos.
Clímax
Aos cinquenta minutos de Reiketsu-hen o roteiro guia todas as demais objetivações ao seus clímaces. A ação ganha os holofotes. Tem sua força motriz fundada em uma elaborada reflexão. Evolui de maneira extremamente dinâmica ao lado da coreografia. Traja-se com numerosas sakugas de variadas técnicas e identidades. Os mecanismos audiovisuais característicos da trilogia são postos a todo vapor. A direção traz seus eficazes trabalhos de som e câmera para elevar a estrutura ao seu pináculo. Para que, então, um verdadeiro espetáculo marque a história da animeografia com uma das mais soberbas cenas de ação já feitas.
Conclusão
Kizumonogatari é o apogeu do refinamento da franquia; atual magnum opus da Shaft; um ícone da década de 10'. Todavia, infeliz por ter sido idealizada em um período aonde Hayao Miyazaki e Isao Takahata ainda podiam lançar novas obras.
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