

Antes de tudo, é necessário avisar que essa review contém spoilers do filme e consequentemente da série de TV. Caso não queira ter a experiência prejudicada, contente-se com a introdução do meu texto. Por sua conta em risco, vamos lá.

Dentre os inúmeros problemas de Bunny Girl Senpai, o que mais prejudicou a série foi o fato de apoiar-se excessivamente em sua pseudociência para explicar seus fenômenos, esses sendo chamados de síndromes da puberdade, buscando parecer um anime inteligente ao tentar relacioná-las a certas teorias do campo da mecânica quântica. E por mais que a ideia possa parecer interessante, a realidade é que isso está longe de ser algo bom dentro do contexto que foi utilizado. Sua lógica é visivelmente distorcida e moldada a bel-prazer na hora de associar as teorias quânticas com as síndromes que as garotas possuem. Essas que muitas das vezes, se parecem bem mais como um simples e inexplicável fenômeno sobrenatural, onde as coisas acontecem de um jeito porque... bem, elas tinham que acontecer daquele jeito, aquele mundo funciona assim. No fim das contas, acaba sendo apenas uma forma de proporcionar todo um drama aparentemente complexo e em seguida, apresentar uma solução qualquer maquiada como algo inteligente. A presença de elementos como a Futaba para servir de explicação para o público acaba servindo apenas para endossar essa ideia, mas objetivamente ela se torna completamente dispensável, pois não é com uma pseudociência cheia de teorias mal associadas que vão alcançar um total sentido do motivo das síndromes ocorrerem com aqueles personagens. Yumemiru Shoujo por sua vez, além de apegar-se fielmente a esses mesmos moldes usados na série de TV, extrapola ainda mais nos limites possíveis para explicar a síndrome trabalhada nesse filme, e isso é sem dúvidas o que mata totalmente a coerência do filme, tornando a experiência bem inferior se comparada ao seu antecessor, mesmo que essa também não tenha sido boa.
Inicialmente, Yumemiru Shoujo até tenta criar uma história coesa e bem estruturada em cima dessa síndrome que a Shouko tem, utilizando de teorias provenientes da mecânica quântica para explicar esses fenômenos, como o gato de schrödinger e o emaranhamento quântico. Esses elementos por sua vez, até fazem algum sentido do ponto de vista mais leigo e a forma como são inseridos incentivam o público a buscar uma ligação mais lógica dentro do conceito da própria teoria e da relação dela com a obra. Até esse ponto, a obra parecia ter conseguido superado seu antecessor, que sempre se perdia nessa área e se autossabotava por isso. Porém, não demorou muito e a introdução de um certo elemento fez o mesmo erro vir à tona novamente... e esse elemento é a "Viagem no Tempo". Indiscutivelmente, esse é um tema bastante complicado de se abordar, por ser um conceito ainda bem desconhecido no meio científico e que por muitas vezes acaba se moldando dentro da própria ficção científica. Poucas obras ocasionalmente acabam alcançado a excelência de um Steins;Gate, pois poucas conseguem mesclar tão bem a viagem no tempo com um universo bem construído e uma lógica interna que seja coerente. Yumemiru Shoujo obviamente não se encaixa nesse grupo seleto de obras. Deixando de lado todos os problemas narrativos que o filme enfrenta por adicionar esse elemento a sua trama, esse conceito é apresentado e introduzido como uma enorme virada no enredo e até funciona como quebrador de limites dentro das possibilidades da própria obra. Porém, é visível que foi feito de maneira totalmente pretensiosa, visando apenas aumentar o interesse do público pela obra, uma vez que sequer tentam dar bases ou uma formar uma lógica interna para esse artifício ser encaixado. Esse filme e a grande maioria dos animes que fazem uso desse recurso acabam ficando apenas no básico, utilizando-se dele apenas por ser um ótimo gatilho para despertar interesse do público e aplicando ele da forma mais conveniente possível, tomando algum cuidado para não parecer algo totalmente jogado, mas evitando grande esforço na hora de inseri-lo em sua trama. Até mesmo a ideia que estabelecem aqui de como voltar no tempo é problemática, uma vez que tudo se resume ao próprio ser e ao seu senso de percepção sobre o que seria o passado, presente ou futuro naquele momento. E eu admito, é inegável que houve ao menos algum esforço na hora de relacionar o tema a personagem da Shouko. Pode-se dizer que é razoavelmente bem inserida dentro dos acontecimentos que abordaram tanto no anime quanto nesse filme, mas ainda não deixa de ter suas sérias lacunas narrativas, principalmente relacionadas a síndrome dela, que não só atrapalham no entendimento da obra, mas também faz parecer apenas uma desculpa esfarrapada para que tudo se encaminhe para o clássico final agridoce depois de tomar algumas “decisões corajosas”.
O Sakuta por sua vez, parece menos babaca, algo que foi um dos maiores problemas depois da metade do anime. Sua personalidade ainda é a de um bom garoto, disposto a ajudar a tudo e a todos, com aquele traço característico de perversão ao interagir com as garotas a sua volta. Por vez, essa sua bondade é colocada à prova nesse filme. O Sakuta tem a chance de salvar a Shouko, seu primeiro amor e alguém muito importante na vida dele. Porém, salvá-la acarretará em sua morte e isso acabaria resultando em graves problemas emocionais para a Mai. Ele claramente não quer fazer a Mai passar por isso, muito menos deixar de estar ao seu lado, mas ao mesmo tempo, ele não consegue conviver com o peso da morte da Shouko. E não há problema algum nessa sua incerteza, pois é sem dúvidas uma escolha difícil pela relação que ele tem com as duas. Porém, quando finalmente o roteiro toma uma decisão impactante e corajosa ao matar a Mai, proveniente dessa indecisão do Sakuta, essa decisão não gera qualquer peso a trama, pois simplesmente optaram por voltar atrás reaproveitando o conceito de viagem no tempo para desfazer tudo isso, o que torna essa morte da Mai em apenas uma forma barata de gerar impacto momentâneo. O roteiro se apoia em alguns minutos de sofrimento por parte do Sakuta buscando aumentar a empatia do público com ele, mas na primeira oportunidade, inventa qualquer modo dele voltar no tempo somente para não ir em frente com essa escolha. Tomaram uma decisão, aproveitaram os lucros dela durante algum tempo, mas quando viram que não conseguiriam lidar com as consequências dela, voltaram atrás. Nem mesmo o Sakuta foi penalizado por sua indecisão. Querendo ou não, um dos culpados da morte da Mai é ele. Não conseguir escolher entre as duas e muito menos transpor isso de forma clara acabou afetando emocionalmente a Mai, resultando na sua morte ao tentar salvar ele. Porém, tirando o sofrimento momentâneo que ele teve que passar, não houve uma real pena por seu erro. E tudo bem, é muito normal que obras revertam algumas escolhas mais sérias de sua trama, porém esse não é o problema. Está tudo bem com isso, desde que ao menos elaborem uma maneira crível para voltar atrás, que convença ao público e a si próprio, o que definitivamente não é o caso aqui. Uma rasa explicação sobre senso de percepção do tempo e um calmante já é o suficiente para que alguém consiga voltar no tempo? Sério, que tipo de lógica furada é essa? Alguém pode mesmo acreditar nesse tipo de desculpa?
E vamos lá, talvez o filme queira falar justamente sobre isso. Nós devemos ter clara noção do que é importante para si próprio, mas ao mesmo tempo não podemos deixar que o meio em que vivemos ou as situações que enfrentamos acabem influenciando nossas escolhas. Caso façamos um paralelo disso a indecisão do Sakuta sobre o que era mais importante para ele e toda a pressão feita sobre sua escolha, de certo modo faz algum sentido. E por sua vez, dar a chance dele voltar no tempo talvez seja um método que o roteiro optou para dar uma segunda oportunidade ao Sakuta, ao mesmo tempo que ensina uma lição para ele sobre o peso das indecisões e para nos mostrar que mesmo com elas aparecendo frequentemente em nossas vidas, ainda teremos outras oportunidades de consertar tudo e entendermos o que for verdadeiramente importante para cada um de nós. Porém, isso não passa de uma ginástica mental aonde eu me esforcei ao máximo para tirar alguma perspectiva diferente desse filme. Sabemos muito bem que nossa realidade não funciona desse jeito e que as nossa escolhas, mesmo as mais simples, causam efeitos irreversíveis algumas vezes, mas aqui tudo é convenientemente ajustado para que dê tudo certo no fim. Além disso, eu ainda prefiro acreditar, por ser muito mais próximo do que realmente parece ser, na segunda opção, onde eles apenas preferem utilizar tudo isso como método para tomar e reverter qualquer decisão na sua obra, unicamente para atingir os ápices emocionais que o filme pedia, pois ficou claro que o objetivo principal era esse, uma vez que esse é um filme extremamente baseado nesse sentimentalismo barato.
E como já venho abordando desde o começo dessa análise, o final é uma forçada incomensurável para obter o final mais agridoce possível, uma vez que uma doença do coração é resolvida após a Shouko não ter mais a síndrome depois dela mesma voltar no tempo. Posso até estar enganado, mas não lembro em momento algum deles citarem que a síndrome poderia influenciar a vida dela nesse nível, a ponto de causar uma doença tão grave. E se tivesse alguma influência mesmo, com absoluta certeza que fariam questão de lembrar desse detalhe na hora em que o Sakuta teve essa ideia. E antes que possa me entender errado, não tem problema nenhum em você fazer uma obra com final feliz ou até mesmo algo menos realista. Agora forçar todos os elementos da sua obra, criar novas regras, construir situações do nada e misturar tudo só para tentar maquiar a péssima escrita é algo aceitável? Para mim não, então é por isso que esse é um péssimo final que mesmo tentando ser agridoce, acaba sendo bem amargo de tão incoerente.
A caracterização é terrível, mas isso não é novidade pois já vem desde o Bunny Girl Senpai. Seus personagens não demonstram, em maioria, qualquer profundidade ou algum traço de personalidade que atraia o público. São vazios, sem aspirações ou inspirações memoráveis, com nada que possa dizer algo sobre eles, apenas utilizando cenas repletas de choro e sentimentalismo barato como forma de simpatizar ou aproximar eles do telespectador. Por sua vez, é inegável que esse recurso consegue agradar um bom número de pessoas. A própria aceitação desse filme já é uma clara demonstração do quão raso algo pode ser e mesmo assim, fazer grande sucesso. Tem gosto para tudo, até eu mesmo já estive desse lado, mas é lutar contra o indubitável ao tentar defender certos elementos dessa obra. Vamos deixar claro que gostar só por gostar de algo não o torna objetivamente bom.
Já na parte técnica, meu pai amado, que decepção. A direção é tão inexpressiva quanto no anime, nada além do mais básico que temos por aí. Porém, diferente de Bunny Girl Senpai que tinha suas temáticas para se apoiar, aqui o problema é muito mais visível por ser um filme totalmente voltado para o sentimentalismo. Pretende fazer o seu público chorar? Então não é qualquer cena inexpressiva que vai conseguir atingir esse objetivo. Os ápices emocionais são tão fracos, que acabam causando o efeito contrário. Grande parte disso é devido ao seu péssimo storyboard, direção de cena totalmente passiva e também de uma escrita pouco inspirada. Todos esses problemas convergem em cenas sem qualquer emoção, onde o apelo máximo é sempre voltado para os personagens com uma cara de choro implorando para você se importar com eles ou com a situação em que eles estão, mesmo que nem o próprio roteiro se importe muito. A trilha sonora por sua vez é realmente impressionante... quando o quesito é ser esquecível. Qualquer batida melosa para qualquer cena melosa. Não tem nada a acrescentar, pois é visível que não houve o menor esforço nessa área. A dublagem por outro lado é realmente boa, mas elogiar muito isso é totalmente desnecessário, uma vez que poucos animes sofrem com isso. Já a arte é igual a série de TV, não expressa nada e em resumo, é bem genérica. Alguns designs de personagens continuam visualmente bonitos, como da Mai ou da Shouko adulta, mas as semelhanças entre as duas acabam jogando fora qualquer elogio que eu teria para com eles.
Confesso que realmente esperava alguma qualidade notável aqui. Algo que realmente pudesse compensar boa parte dos problemas que a série de TV cometeu. Um grande motivo dessa minha esperança é proveniente da própria apresentação da Shouko durante o anime, que além de sempre ser insinuada, era cheia de mistérios e aparentou ter um enorme envolvimento com o passado do Sakuta, sendo um ótimo caminho para desenvolver melhor o personagem que se resume apenas a "brincalhão erótico". Mas não, esse é só um filme que se utiliza dos mesmos moldes que já vimos no anime e que ao mesmo tempo tenta ser o ápice de construção de arco quando envolve as suas teorias, porém se mostrou muito raso e extremamente problemático ao desenvolver-se após a virada do filme. O enredo apresenta sérias incoerências e lacunas narrativas, cria conceitos do nada e apela exaustivamente para uma pseudociência irritante. Falharam ao tentar criar empatia em cima de todo o sofrimento do Sakuta, utilizaram a viagem no tempo de maneira totalmente conveniente, preguiçosa e presunçosa, e ainda finalizam forçando todos esses elementos para encaminhar o final mais agridoce que conseguiram pensar. Você até pode tentar pensar nesse filme com uma perspectiva diferente, procurando uma temática ou algo que possa validar esse filme como uma bom drama. Mas no fim de tudo, o que terá de mais abundante é um vazio de ideias chorando e implorando para você gostar dessa obra. Não se engane nem com a nota desse filme, e nem menos com a nota da série de TV. Por mais que deteste usar esses termos, essa obra é muito overrated e está longe de ter a qualidade que sua nota aparenta. Não estou impondo que você não pode ou não possa gostar, longe disso. Veja e tire sua próprias conclusões. Agora se o que você quer ver é um filme sentimentalista e com escrita simples, mas que ainda consegue ser bom, então "Kimi no na Wa" e "KimiSui" podem te agradar bem mais.
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