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Desde os primórdios da civilização humana, uma das maiores dificuldades que enfrentamos é a de revelar nossas verdadeiras emoções. A vergonha e o medo de uma rejeição sempre assombraram quem teve a coragem para encarar o desafio e admitir seus sentimentos para sua pessoa amada. Com certeza, essa é uma das piores sensações que alguém pode passar na vida. Entretanto, se essa é uma sensação tão ruim, por que não fazer o outro se declarar? É dessa premissa que dois gênios egocêntricos partem numa longa, intensa e envolvente batalha para determinar quem terá de se confessar primeiro. Kaguya Shinomiya é a herdeira de um mega empreendimento corporativo, um prodígio capaz de fazer inúmeras coisas, mas que raramente interagia com pessoas fora de seu círculo social. Já o seu adversário é Miyuki Shirogane. Esse que vem de uma origem muito mais humilde, mas que sempre foi extremamente empenhado para chegar ao topo da sua classe, mesmo que infelizmente, ele tenha pouca experiência com qualquer outra coisa. Apesar de uma educação muito diferente, ambos compartilham algumas coisas em comum, como uma inteligência incomparável, grande teimosia, egos impressionantemente inflados, e acima de tudo, ambos estão completamente apaixonados um pelo outro.
Compreender o conceito do amor que envolve os dois não é tão importante aqui. Em suma, ele segue alguns padrões já bem estabelecidos em milhares de rom-coms, onde são as suas ações e atitudes que acabam por desenvolver um sentimento no outro. Porém, este não é o foco da obra. Não estamos aqui para acompanhar essa etapa. Na verdade, ela é pulada sem qualquer receio logo nos primeiros cinco minutos, onde de um simples "Eu não me importaria de aceitar namorar com ele" passamos para um "Eu preciso fazer ele se confessar pra mim". É nítida a diferença de atitude, porém, o sentimento já está lá e não acompanhamos essa progressão, pois ela é indiferente no contexto que será discutido mais adiante. A verdadeira intenção da obra é trabalhar em cima do próximo passo, ou seja, confessar seus sentimentos. A questão aqui é que nenhum dos dois está disposto a isso. Por seus egos estarem mais inflados que um balão de ar quente, ambos compartilham a ideia de que o amor é uma fraqueza da mente e confessar-se é um ato tão contra o orgulho que isso os transformariam em perdedores, não permitindo que eles passem por essa fase, mesmo que no fundo estejam tão obcecados por isso. A solução que ambos encontram para esse impasse é bem simples: Utilizar de seus intelectos para fazer o outro se confessar. E esse que é o lado mais genial, pois em poucos minutos, o terreno fica preparado para servir de palco para uma série de batalhas psicológicas altamente inventivas e repletas de um alto teor cômico em cada cena.
Logo de cara, fica bem visível qual é a maior qualidade de Kaguya-Sama: Love is War, está sendo a sua capacidade de compreender e abraçar os clichês da comédia romântica. Já sabemos que este é um gênero extremamente saturado em quase todas as mídias, com as mesmas ideias batidas sendo repetidas incessantemente, mas aqui ele recebe uma nova cara ao utilizarem tais clichês como estopim das batalhas dentro da sua proposta psicológica. Proposta essa que é bem pretensiosa, visto que exploram esse lado a um nível de qualidade equiparável a clássicos do gênero. Planos são estipulados, cálculos são resolvidos, movimentos são premeditados, patrimônios e conexões pessoais são utilizadas... Absolutamente tudo está valendo para alcançarem seus objetivos! Afinal, se Amor é Guerra, vence quem tiver a melhor estratégia. Logo, um encontro falhar é completamente normal, porque ninguém está disposto a deixar seu ego de lado para que isso aconteça. A confiança de que farão o outro se confessar acaba movendo as disputas ao decorrer de toda a série, sustentadas pela recompensa de não precisarem ferir seus egos. E devo dizer que pode ser bem decepcionante ver algumas coisas não se concretizarem por conta disso. Entretanto, o roteiro inteligentemente só entrega uma real vitória para os personagens quando estes deixam de lado pelo menos um pouco desse ego. Lentamente, o amadurecimento dos dois está sendo incentivado e recompensado, além de estarem começando a descobrir o que é melhor e mais importante para eles, mas ainda sim, eles são teimosos e egocêntricos demais para entenderem isso rapidamente, o que nos proporcionará uma enorme abundância de conteúdo ao longo desse caminho.
Alguns podem apontar que esta é uma obra repetitiva. Não acredito que essa seja uma verdade fatídica, mas é visível que o molde principal é repetido durante boa parte da série. No entanto, é importante contextualizar que um problema só aparece quando esse molde serve apenas para fazer a mesma coisa, como se fosse um método para se manter na zona de conforto. O clichê é o melhor exemplo disso. O problema não está nele em si, mas na forma como ele vai ser utilizado. Agora quando você tem a capacidade de utilizar um mesmo molde de várias formas diferentes e funcionais dentro da sua proposta, não há problema algum. E esse é o grande apelo de Kaguya-Sama, o qual faz tão bem, pois ele se aproveita desses clichês e padrões subvertendo-os a outras possibilidades. Até um simples e clássico convite para dividir o guarda-chuva é premeditado por uma tensa e envolvente batalha mental entre os dois. Um mero Kabedon, uma técnica milenar das rom-coms japonesas, é fantasticamente explorado e primorosamente inserido em uma de suas esquetes mais cômicas. Uma longa e instigante batalha é travada entre os dois unicamente para estipular quem terá de fazer o convite para assistirem a um filme juntos. Todo o cuidado que a obra tem para criar e desenvolver a história de cada esquete, desde o texto e o storyboard até a trilha sonora, tudo é planejado para encaixar perfeitamente na ideia do anime, sendo bem complicado de apontar alguma que tenha sido concebida de uma maneira mais desleixada.
Grande parte desse mérito está em sua direção. Shinichi Omata conseguiu entender a ideia da obra e fez uma adaptação consciente de todas as qualidades do material original. Seus storyboards acompanham lado a lado as intenções de cada cena, com visuais extravagantes e abstratos que trazem esse lado introspectivo do psicológico de cada um dos personagens para a tela, seja ao utilizar notas, ao representar ações e reações de outros personagens, ou apenas com efeitos visuais que podem demonstrar uma aura ou algum tipo de pressão sendo exercida. É de extrema importância prestar atenção em tudo que está em tela, pois não é só com diálogos que o Shinichi expõe os planos ou pensamentos dos personagens. Ao mesmo tempo, ele dosa com aparente experiência o uso da trilha sonora e dos efeitos sonoros. Toda uma cena poderia perder seu sentido caso não houvesse tamanho cuidado nessa parte de sons, porém aqui elas acabam por ganhar força tanto no lado cômico quanto no romântico. Seu timing frenético para as piadas acaba apenas por misturar esses dois elementos, que por sua vez alcançam uma mescla perfeita para que tudo funcione, tanto internamente quanto externamente, deixando o tom da obra mais absurda e excêntrica que o normal em rom-coms.
Uma de suas marcas mais memoráveis de tal excentricidade é a sua narração, um elemento que acompanha a obra do início ao fim. E sua função é bem simples e prática... melhorar sua experiência com todos os outros elementos da obra. Acompanhar o raciocínio de dois gênios pode ser demais para meros mortais que nós somos, ainda mais quando boa parte dele está bem divergente de nossa realidade ou do senso comum. E são nesses momentos em que o narrador aparece. Partes importantes são explicadas através dele, sem que necessitem recorrer a todo instante a um monólogo expositivo de algum dos personagens explicando seus métodos de raciocínio. Eles até existem, mas são reduzidos e bem mais eficazes graças a presença do narrador. Além disso, ele também ajuda na parte cômica. Yutaka Aoyama tem um estilo barulhento e irritante, mas que corrobora com o absurdo cômico que a obra traz. Ele não só cria certas piadas como também melhora outras, sempre entrando com um tom de voz inusitado e fazendo comentários essenciais para as piadas feitas. Num geral, ele conversa muito bem com toda obra, mas alguns até podem se incomodar com sua presença. Todavia, é inegável que este é um recurso com função e timing cômico bem executados, tornando-o em um personagem vital que interage por fora com os outros da obra.
Quanto ao seu grupo de personagens, é necessário dividir em dois subgrupos: Os que fazem a trama rodar (Miyuki e Kaguya), e os que seguem o fluxo dela (Chika, Ishigami e o restante dos coadjuvantes). E por mais que essa seja uma história de dois apaixonados, a Kaguya parece ser o verdadeiro centro da obra. E eu não digo isso baseado apenas pelo título da obra levar seu nome, mas porque a trama constantemente dá mais ênfase para seus conflitos familiares através de simples nuances, que culminam todas no capítulo dos Fogos de Artifício. Ela tem bons amigos, nasceu em uma família nobre e invejada, é extremamente capaz de fazer quase tudo, além de possuir um intelecto que todos gostariam de ter. Porém, como a vida costuma equilibrar sorte e azar em quantidades iguais, seu âmbito familiar é terrível. Sua relação com o seu pai é desprovida de qualquer amor ou carinho. Além disso, por causa de sua posição, ela acaba agindo de acordo com o que os outros esperam dela, sempre fingindo que não tem problema algum com toda essa situação, mas internamente ansiando para que alguém a salve. Salvador esse que potencialmente tende a ser o seu amado rival, Miyuki. Por vir de uma origem mais pobre, ele é viciado em trabalhar, sendo quase que um hobby para ele. Talvez ele fosse uma pessoa quase que perfeita se não fosse pela sua completa falta de experiência em qualquer outra coisa. Mas se por um lado o conflito familiar da Kaguya torna sua subtrama mais interessante de acompanhar, pelo outro lado o Miyuki não tem nada muito atrativo para entregar. Mesmo com enorme importância para a mecânica da obra, seu funcionamento é bem carente da sua relação com sua amada, sendo quase que dispensável quando está sozinho. Porém, quando em conjunto, ele é capaz de proporcionar uma disputa amorosa intensa e de alto nível, graças ao seu intelecto admirável proveniente de sua obsessão e esforços para ser o melhor dentro de seu ambiente.
Agora no grupo dos que seguem o fluxo da obra, nós temos grandes nomes para apontar. Dentre as peças mais importantes, creio que a Chika, a secretária do conselho, seja indispensável para essa química funcionar. Ela é a definição da fofura, com uma personalidade inocente e amável, mas se mostra completamente incapaz de entender as tensões no ar. Logo, constantemente, ela consegue atrapalhar ou beneficiar algum dos dois sem sequer perceber. Ela é a famosa Teoria do caos, pois seus comentários casuais acabam sempre lançando um cisco de caos nas estratégias dos dois, sempre levando a uma derrota instantânea, o que deixa a série possivelmente mais dinâmica quando está em cena. Já o Ishigami é um gênio em processamento de dados, o que lhe concedeu o título de tesoureiro do conselho estudantil. Sua personalidade é extremamente paranoica, mesmo que boa parte das suas ideias até façam algum sentido. Seu modo de pensar é bastante excêntrico e genuíno, além de ser o típico personagem cativante pela sua sinceridade. Porém, seu brilho está em seus comentários que sempre agregam a cada interação, de modo discreto, mas bem pontual. Sem dúvidas, ele é um gênio incompreendido! A Hayasaka por sua vez não é tão importante quanto os outros, mas tem um objetivo único para a história. Ela serve como suporte da Kaguya, muitas vezes agindo por fora para ajudar em seus desejos e a repreendendo em certos momentos mais egoístas, ajudando em seu amadurecimento. Quanto aos outros personagens, eles raramente recebem grande foco, mas todos eles também são essenciais nesta trama. Por ser um anime no formato de esquetes cotidianas, faz-se necessário criar várias "mini-tramas" para dar mais conteúdo para os duelos mentais do Miyuki e da Kaguya. É então que entram em cena um casal amoroso, a irmã do Miyuki, o diretor do colégio, etc. Todos esses tem alguma utilidade e não são abandonados depois que cumprem seu propósito, normalmente voltando para trazer uma nova esquete para engrandecer ainda mais a obra.
Por fim, a parte técnica também deve ser muito elogiada. Por se tratar do estúdio A-1 Pictures, é até difícil de acreditar que conseguiram proporcionar tamanho empenho em uma obra que não seja relacionada a Sword Art Online. Tal empenho já fica visível em sua opening e nas suas endings, mas não se resume somente nisso. Toda a composição do anime esbanja muita criatividade, seja na animação que traz um bom design de personagens, além de entregar exemplarmente os visuais mais abstratos, ou na trilha sonora que é variada o bastante para ter uma faixa para cada estilo necessário no momento, estando sempre bem alocadas em cada cena. Mesmo um simples piano encaixa perfeitamente na intenção do autor e se torna indispensável dali em diante. Ainda na parte sonora, a dublagem entrega tudo que os personagens querem expressar. Ambos conversam muito bem, conseguindo sempre entregar um tom ou estilo de fala preciso para cada situação. Parece que a staff estava realmente empenhada e até mesmo se divertindo com tudo isso, então o resultado não poderia ser inferior. É feito com um amor genuíno, o que corrobora bastante com a ideia da série.
Silenciosamente, uma batalha amorosa é travada para que eles não tenham seus egos feridos. Ao mesmo tempo, inconscientemente, eles estão amadurecendo e começando a levar em consideração o que realmente importa entre o orgulho ou a realização amorosa. Quem irá se confessar primeiro? Ninguém sabe. E talvez até lá, isso nem mesmo importe. Porém, enquanto este momento não chegar, seremos agraciados com mais dessas relações envergonhadas e divertidas por um bom tempo.
Kaguya-Sama: Love is War traz um alívio a esse gênero tão saturado que é a comédia romântica. Com sua direção criativa, que esbanja qualidade em seus storyboards e em seu uso exemplar da parte sonora, a obra entrega uma comédia muito bem planejada, estruturada e executada dentro de sua proposta. Seu lado psicológico, além de muito funcional, espanta pela qualidade e envolve o público numa batalha instigante pela defesa do ego, mas ao mesmo tempo, o roteiro sabe demonstrar o quão falhos os dois são por isso, sempre penalizando ou recompensando os dois quando se faz necessário. Uma proposta é jogada, mas cabe aos dois se querem continuar com essa falsa retórica. Amor é, necessariamente, uma Guerra? Bem, é papel dos dois definir o que é de fato o amor para cada um deles. Ainda sim, está é uma história sobre a vergonha de se declarar e o medo da rejeição, e gradativamente nossos dois pombinhos perdidamente apaixonados começaram a entender que isso é algo natural na vida em convívio, andando cada vez mais rápido em direção do tão apavorante, mas recompensador: "Eu te Amo".
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