

Dororo aborda a história de uma aventura com notáveis traços de crueldade que se passa durante o Período Sengoku no Japão feudal, uma época marcada por seus conflitos brutais entre samurais. Dentro desse contexto, monstros sobrenaturais e demônios do folclore japonês existem e concedem pactos em troca de desejos. O protagonista é Hyakkimaru, uma vítima de um desses pactos feito por seu próprio pai que ansiava por poder para salvar sua terra. Em troca de ser o líder de uma região, ele ofereceu o corpo do filho para 12 demônios devorarem. Após seu nascimento, o menino não tinha membros, nariz, olhos, orelhas ou pele, mas ainda assim, ele vive. Esta criança é descartada em um rio e esquecida, mas por sorte, ele é salvo por um curandeiro que lhe fornece próteses e armas, permitindo que ele sobreviva e se proteja nesse mundo. O menino cresce e, embora não possa ver, ouvir ou sentir nada, ele deve derrotar os demônios que o levaram como sacrifício. Com a morte de cada um, ele recupera uma parte do corpo que é dele por direito. Por muitos anos, ele vagueia sozinho, até que conhece um garoto órfão chamado Dororo, que o acompanhará em sua jornada. Ambos agora devem lutar por sua sobrevivência e humanidade em um mundo implacável, infestado de demônios e assolado por uma constante guerra.
Antes de tudo, é importante avisar que essa review contém spoilers de determinados pontos de Dororo que podem comprometer sua experiência. Por sua conta em risco, prossigamos com a análise.
A premissa trás a ideia de uma obra mais sombria, com o que vem a ser uma jornada do Hyakkimaru para reivindicar o que é seu por direito. O começo é competente o suficiente para encaminhar a trama rapidamente, apresentando toda a base dos acontecimentos do passado do Hyakkimaru e da complicada relação que teve com sua família. Tão rápido quanto, é na hora de percebermos qual o estilo narrativo que será adotado, este sendo muito mais voltado para um estilo episódico, onde pequenas histórias são criadas para dar algum contexto a cada demônio que forem enfrentando, sendo algumas realmente interessantes e outras extremamente supérfluas ou dispensáveis. Por sua vez, a adaptação neste ponto é seguramente o auge da série, pois parecia que o estúdio MAPPA estava realmente comprometido em adaptar o mangá do Osamu Tezuka. A mudança dos design, as edições no texto, as alterações de algumas cenas, até mesmo a qualidade da produção, tudo isso demonstrava certo empenho em dar uma nova cara digna para a obra, mas preservando a essência da história original. O tom mais cômico e caricato davam lugar a uma atmosfera mais séria e depressiva, ao demonstrar uma terra completamente hostil, infértil e sem vida assolada pelas constantes guerras, corroborando com a premissa apresentada até então e dando maior peso a trama central. Com isso, conseguiram proporcionar alguns episódios ricos com bons conflitos de ideias e temáticas pontuais, que abordavam as consequências daquele mundo do ponto de vista micro. De uma simples criança que perdeu o contato com sua família, até uma jovem que precisou se prostituir para poder comprar comida para alimentar as crianças que cuidava. Acompanhar episódios com esse tipo de background era realmente envolvente, e perceber todas as nuances disso colocadas na tela era muito estimulante. Ao mesmo tempo, a junção desses momentos com a trama central era bastante competente. Mesmo que a estrutura de "monstro semanal" tornasse a narrativa bem previsível e um pouco automatizada, ainda percebia-se um senso gradativo de avanço no decorrer da história. Cada monstro eliminado era mais uma parte do corpo recuperada, então a jornada estava caminhando de algum modo. Além disso, essa jornada trazia uma forte conexão para com um dos conflitos mais interessantes proporcionados por essa obra, que é a busca da humanidade do Hyakkimaru. Essa é uma temática que já vimos em várias outras obras, mas que se feita da maneira certa, pode proporcionar experiências magníficas ao desenvolver-se. O problema é que, se no começo tudo isso era muito bem desenvolvido e cativante, o mesmo não pode-se dizer do rumo tomado do meio para frente.
Como dito antes, a trama segue numa estrutura episódica de "monstro semanal". Geralmente isso consistia em acompanharmos Hyakkimaru e Dororo chegando em alguma vila ou região específica, descobrindo um problema que envolvesse algum demônio ou monstro, eliminando-o e, ocasionalmente, recuperando alguma parte de seu corpo no processo. Esse modelo acaba reduzindo grandes avanços na história, pois é necessário substituí-la por tramas e personagens completamente novos em cada episódio, o que tira o foco do que deveria ser o principal na obra. Porém, isso não parecia um problema a princípio, já que havia um contexto maior sendo trabalhado para adicionar um desenvolvimento constante aos personagens, essas sendo as várias experiências abordadas pelas guerras. Por mais que monstros e demônios existissem, as guerras eram as principais responsáveis por tirarem a possibilidade de uma boa vida, não só dos protagonistas, mas de todos que foram envolvidos nela, e de começo, esse parecia ser o verdadeiro cerne da questão. Ela não parecia ser uma simples história do Hyakkimaru recuperando seu corpo, mas sim da junção de várias histórias de pessoas afetadas pela guerra. A retratação de tempo difíceis trazia uma situação desoladora, onde todo personagem apresentava uma experiência trágica com a guerra, o que enriquecia o texto e tornava a experiência mais crível e imersiva. Acompanhar a história particular de cada vila e todos os problemas que seus habitantes enfrentavam tinha como propósito proporcionar perspectivas diferentes para moldar o caráter dos protagonistas, e isso era o grande charme da sua primeira metade. Era incrivelmente interessante acompanhar nossa dupla de protagonistas sendo moldados por tais experiências, então acaba sendo bem difícil de aceitar a mudança desse foco para algo como um conflito familiar do Hyakkimaru, que estava cheio de personagens arquetípicos e sem qualquer qualidade notável para se mencionar.
Esses conflitos já vinham sendo levemente construídos e encaminhados, mas após o encerramento de sua primeira metade, eles ganharam mais destaque e acabaram se tornando no verdadeiro foco da trama dali em diante. Somos apresentados a terrível relação com seu pai, Daigo, que após ter noção de que seu filho estava vivo e que era o responsável pela prosperidade de sua terra estar acabando, está completamente empenhado em matar seu próprio sangue para que tudo isso se encerre e sua terra prospere novamente. Alinhado com isso, a sua mãe acaba sendo a pobre coitada que é influenciada para que não questione as atitudes de Daigo, mesmo que internamente ela anseie em reaver seu filho. Por sua vez, Tahomaru parece a princípio alguém disposto a compreender o lado de seu irmão, mas devido a influências de seu pai e motivado por um ciúme que foi cultivado a vida toda, ele acaba ajudando na tentativa de matá-lo, mesmo que não ache certo o que fizeram com seu irmão. As motivações de cada um são apresentadas, mas todas simplesmente permanecem imóveis até o fim. Todo esse conflito familiar é muito mal explorado, pois já não bastasse serem completos arquétipos inseridos nesse contexto familiar, ainda não conseguiram entregar algo perto do nível de qualidade da temática abordada em sua primeira parte. Seu pai, o grande foco dos problemas, sequer proporciona algum embate, deixando tudo nas mão do Tahomaru, que fica encarregado de dar o devido fim ao seu irmão. Porém, o mesmo age com uma rasa motivação, e por causa de seu enorme ciúme não muito compreensivo, fica impossível de abordarem uma relação que não seja através de uma batalha até a morte, limitando bastante a variedade de confrontos ou o embate de ideias entre os dois. Já sua mãe que realmente parecia se importar com ele, fica apenas se lamentando durante o anime inteiro, apenas tomando alguma atitude no fim e que nem influencia algo de fato, sendo completamente inútil durante toda a obra. Chega a ser quase incompreensível essa troca de foco, onde abandonam uma proposta muito mais promissora e que poderia andar junto do estilo episódico da série sem muitos problemas, por um drama familiar que beira o ridículo e é cheio de personagens batidos e sem muita inspiração.
Entretanto, mesmo que toda a família do Hyakkimaru seja um completo desperdício, ao menos o conjunto de personagens principais servem bem aos seus propósitos e apresentam conflitos suficientemente interessantes. Por sua infância completamente distinta de qualquer outra, Hyakkimaru é praticamente uma folha em branco. Não possui traços de personalidade, nem aparenta ter emoções, sendo quase um boneco movido unicamente para matar demônios. Seu conflito familiar pode não ser bem explorado, mas sua criação de personalidade supre essa lacuna por boa parte do show. A medida que a trama avança, que mais demônios são derrotados e mais partes são recuperadas, somos apresentados a situações que geram um desenvolvimento constante em sua criação de caráter, moldando sua visão sobre aquele mundo e as pessoas que o cercam. Dororo por outro lado, já tinha um background suficientemente interessante no começo da obra para manter sua presença relevante. Pelo seu passado trágico, perdendo todos os parentes que tinha, acabou tendo que aprender a se virar sozinho. Sua relação com o Hyakkimaru é harmônica, onde cada um ajuda em algo que o outro não é capaz. O Hyakkimaru luta e protege, enquanto Dororo articula e interage, tornando um indispensável ao outro. Porém, o problema dessa relação é que, enquanto um deles é desenvolvido e vira o foco da trama, o outro praticamente não tem importância e vira apenas um personagem de apoio para servir de acordo com sua função na relação dos dois. Por conta disso, Dororo saiu muito prejudicado ao fim, pois em diversos momentos, a história se foca unicamente nos conflitos do Hyakkimaru, privando uma melhor exploração de sua subtrama. Já quando o mesmo ganho o foco, Hyakkimaru praticamente desaparece da obra, com algum conflito desinteressante sendo abordado apenas para justificar sua ausência.
Outra falha miserável que cometem são os episódios secundários que não tem qualquer utilidade em sua segunda metade. Por mais que no começo da obra, alguns desses episódios proporcionassem situações tão ricas para o desenvolvimento de nossos personagens centrais, como um choro de tristeza de uma mulher ser a primeira coisa que o Hyakkimaru escuta após matar o seu irmão ou quando Dororo descobre que a mulher que conheceu precisava se prostituir para sustentar as crianças que cuidava, em outros momentos eles não tinham qualquer impacto na vida dos dois, e em um certo ponto dessa segunda metade, fica quase evidente que esses episódios servem apenas para entregar as partes restantes do corpo do Hyakkimaru. Não demonstravam quase nenhum empenho em alinhar tais episódios com a trama central e muito menos davam algum foco para desenvolver situações particularmente intrigantes como na primeira metade. Tais momentos magníficos que tinham a capacidade de abordar situações tão únicas para os dois acabaram ficando cada vez mais escassos, fazendo com que eu me importasse cada vez menos com a jornada que estava próxima ao fim, o que por sua vez, torna toda a sequência final irrelevante para mim, pois naquele momento, eu já não me importava com o drama familiar do Hyakkimaru e muito menos com o próprio conflito dele.
Algo que pode ser difícil de entender são algumas lógicas por trás do funcionamento de certos elementos nessa obra, em especial, do Hyakkimaru. Como seria possível um recém-nascido sem vários órgãos importantes conseguir sobreviver e lutar daquele jeito? Ou então, como próteses de madeira conseguem realizar movimentos tão precisos, uma vez que não tem qualquer ligação com os nervos? Perguntas desse tipo rondam a obra, mas se por acaso você esperava alguma explicação bem detalhada e convincente para isso, é evidente que saiu decepcionado. A série não toma quase nenhum tempo para explicar tais coisas, sendo de extrema importância a suspensão da descrença para uma melhor experiência. No entanto, é importante ressaltar que por mais que possa parecer inicialmente ruim, a ausência de explicações acabou sendo algo positivo aqui. Independente de quanta ginástica mental você faça, seria impossível chegar a uma lógica por trás de tal funcionamento. Logo, não perder tempo com qualquer explicação furada e apenas seguir em frente se mostra bem mais eficiente, onde acabam justificando certas decisões com elementos religiosos e sobrenaturais apenas para ter algum fundamento um pouco mais crível, o que num geral, funciona o bastante para evitar um acumulo de perguntas.
Quando a qualidade da produção, ela tem seus méritos em algumas áreas, como na trilha sonora por exemplo, que trazia um estilo de batida com tambores que ficava bem inserida dentro de cada cena. Já dublagem e alguns dos efeitos sonoros eram bem amadores, o que incomodava em alguns pontos, mas que não parecia ser algo tão necessário de qualidade, então me afetou pouco num geral. Mas sem dúvidas, o maior ponto negativo da parte técnica foi a sua animação. Algo que particularmente me assusta foi o declínio inexplicável da sua qualidade. Se no começo o visual e a direção eram promissores e tinham certo valor, o mesmo não se pode dizer de como ela decorreu em sua segunda metade. A qualidade da animação decaiu rapidamente e a coreografia de luta ficou sem qualquer inspiração. Um confronto que deveria ser algo épico e marcante era resolvido com um simples corte de espada, que de tão mal feito parecia ter sido animado ao arrastar um boneco PNG dentro de uma imagem no Paint. Já os cenários em aquarela davam uma estética monocromática interessante e a palheta de cores mais cinzenta corroborava bem com a atmosfera inicial da obra, mas com o tempo, ficou praticamente impossível de não notar a péssima ligação com os personagens quando esses eram inseridos em cena. O estúdio MAPPA simplesmente abandonou aquela empolgação inicial, onde pareciam melhorar tudo que podiam, e contentaram-se com uma abordagem medíocre e sem qualquer charme, transformando o que era promissor em um completo desperdício.
Dororo pode ser facilmente resumido em um grande desperdício, pois tinha uma apresentação instigante, com uma história trazendo um tom sombrio e uma temática envolvente, mas que ficou cansada em seu decorrer, desenvolveu-se extremamente mal em sua segunda metade e o resultado foi contentar-se com a mediocridade de resoluções rasas e de pouquíssimo efeito, onde acabava sempre perdendo seu foco daquilo que realmente importava. Diversos motivos podem aparecer para justificar tal declínio, desde a fragilidade do próprio material original, até mesmo o tamanho alongado de 24 episódios, onde muito conteúdo poderia ser cortado para condensar e manter a qualidade do texto. Independente disso tudo, o resultado está aí e não há mais o que fazer. Mesmo após diversas reflexões, decepção é o único sentimento que permanece em meus pensamentos. A quantidade de boas ideias descartadas me entristecem, pois eu realmente acreditava que Dororo tinha potencial para marcar a década... Tezuka merecia isso!
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