
a review by Pachirisu

a review by Pachirisu
Por muito tempo, dormi no ponto e me recusei a assistir a adaptação do mangá VINLAND SAGA. Os vídeos promocionais, em minha opinião, não convencem muito e não dizem realmente muito sobre a série. Eu não conhecia nada da saga, então me pareceu apenas mais uma estorinha mediana sobre viquingues. Visual legal, som legal, animação interessante, mas nada que realmente me atraísse. Só consegui pensar que não teria um bom enredo nem um bom desenvolvimento de personagens. Normalmente, animações e séries de TV sobre viquingues deixam muito a desejar e como internacionalista amante de historiografia europeia, tenho traumas diversos. Mas céus... COMO EU ESTAVA ERRADO!
Vou dividir esta resenha em quatro pontos: aspecto histórico e contextualização geopolítica, roteiro e trama próprios, desenvolvimento de personagens e arte.
1 - Histórica e politicamente falando, a série é absolutamente precisa em todos os eventos relevantes que conta. Repito: TODOS OS EVENTOS RELEVANTES. Eventos menores como histórias criadas de personagens não-históricos (isto é, que não são baseados em pessoas que realmente existiram e participaram por exemplo das guerras e dos descobrimentos contados na saga) mantém todo o charme de um anime bem feito que tem o público adulto como alvo mas sabe que todo adulto já foi adolescente e gosta de uns bons exageros. Não quero dar muitos spoilers aqui, mas resumidamente, temos dois personagens importantíssimos na série que até onde se sabe não são baseados em pessoas reais: Thors, pai do protagonista, e Askeladd, o antagonista principal da trama. Eles são os únicos realmente relevantes que foram "inventados", por assim dizer. Porém, ambos (e falarei melhor no terceiro ponto) têm histórias magnificamente bem escritas, dirigidas e executadas. Retomando o tema deste ponto, vemos na saga uma série de eventos que se passaram séculos atrás como as guerras viquingues entre noruegueses e dinamarqueses, a invasão dos normandos à Bretanha, a derrocada dos Francos, o cerco a Londres e a ascensão do rei danês da Inglaterra Cnute, O Grande. É certo que algumas situações menos importantes ocorridas na saga, que são elementos menores dessas histórias reais, não são historicamente precisas sobretudo por envolver personagens que não existiram; mas, repito: o resultado final é o que os livros que estudamos nas faculdades de História, Ciência Política e Relações Internacionais nos contam. Sendo assim, a precisão foi justa. Essas situações "extras" tem a função de nos ambientar e fazer entender melhor a tensão do jogo político e das tomadas de decisão bélicas em cada combate ou embargo diplomático - e fazem isso muitíssimo bem;
2 - O roteiro é brilhante. A história começa em um momento em que vemos uma sucessão de combates que deram moral aos principais exércitos viquingues a serviço do rei Sweyn e potencializaram sua escalada conquistadora até chegar ao ápice do poderio hegemônico dos viquingues na Europa: a conquista da Inglaterra e a coroação de Canute, O Grande. Por vermos a roda começar a girar onze anos antes da invasão a Londres, podemos acompanhar o protagonista Thorfinn (este, sim, baseado em um explorador escandinavo real) vivendo o inferno de ser criado pelo homem que matou seu pai - tudo porque quer estar próximo dele e consumar sua vingança. Ao acompanhar o bando de piratas de Askeladd, Thorfinn cresce como um hábil guerreiro e por isso participa de eventos históricos importantíssimos (todos os citados no ponto anterior). Acabamos, então, não apenas assistindo a episódios reais da história da humanidade sendo contados em um anime, mas também nos deliciando com uma história paralela que nos traz todos os tipos de emoções possíveis e cria um apego a mais à trama. Não queremos apenas ver se Londres vai cair. Não queremos apenas ver se os francos serão derrotados. Queremos saber se Thorfinn conseguirá vencer seu nêmesis. Queremos saber mais sobre esse antagonista tão astuto e carismático. Queremos saber mais sobre Thors, Thorkell e Floki. Queremos saber mais sobre as terras da Vinlândia (que existem e estão no Canadá!). Queremos sempre mais. A alternância entre as histórias paralelas e as reais torna a série muito mais apelativa que seria caso fora exclusivamente um relato histórico;
3 - Os personagens são... reais. Não estou me referindo ao fato de alguns deles terem sido baseados em personalidades icônicas da história humana, mas a todos serem reconhecíveis. Mesmo os personagens menores são tão bem escritos e desenvolvidos que tudo o que consigo dizer sobre eles é que parecem reais. Thorfinn vive uma relação extremamente abusiva com aqueles com quem compartilha sua infância e adolescência longe de casa. Enquanto protagonista, acompanhamos não só seu desenvolvimento como guerreiro, mas sua luta interna contra o seu verdadeiro e maior inimigo: seu subconsciente humano. Crescendo como uma máquina de matar com um solo objetivo que é o de desafiar seu chefe a um duelo e matá-lo para vingar seu pai, a emoção, a empatia e a humanidade acabam adormecidas. Toda vez que se vê confrontado com dilemas que não se resolvem na força bruta, o rapaz sofre mais para sequer entender a situação que sofreria para enfrentar um gigante de dois metros e meio com potência física suficiente para arremessar rochas de 400 kg em navios alheios. A história criada para seu pai e sua família pode parecer até um pouco clichê (um comandante de um exército que nunca temeu sua própria segurança enquanto trabalha percebe que agora a teme por ter uma família e decide fugir do campo de batalha), mas é o evento que realmente guia todo o desenrolar da série e cria as oportunidades para o surgimento do protagonista e, sobretudo, do antagonista mais incrível que vi em anos. Askeladd é, como define o amigo que me recomendou a série, o único "agente independente" de toda a trama. E é ele quem dá as cartas. Sempre. Sua habilidade intuitiva de ler pessoas com um simples olhar e sua inteligência fora do comum o permitem planejar cada uma de suas ações como se jogasse xadrez contra criancinhas. Se há um trabalho que lhe dará dinheiro e fama, ele estará lá e matará não importa quem porque negócios são negócios. Se seu exército está cercado e com números bem menores que o do adversário, sempre há uma estratégia para virar a mesa. E se a mesa não vira, basta passar para o outro lado dela. Ele joga com comandantes, príncipes, reis e mesmo lendas vivas dos contos viquingues (Thorkell, por exemplo). E não importa quem seja o indivíduo: Askeladd sempre consegue utilizá-lo ao seu favor para roubar suas riquezas, matá-lo ou tê-lo ao seu lado como companheiro de guerra. "Todo homem é escravo de alguma coisa, e escravos sempre obedecem" - é assim que ensina Thorfinn sobre como manipular uma pessoa, uma aldeia ou mesmo um país. E claro, facilmente pôde manipular nosso protagonista durante mais de uma década. Nutrido de ódio, Thorfinn faria qualquer coisa que ordenado por seu agora chefe e talvez até pai adotivo desde que fosse mais tarde recompensado com um duelo de honra até a morte - isto é, até a morte caso ele vença, pois Askeladd sempre prefere mantê-lo vivo para continuar usando sua força. O último episódio revela que tudo o que críamos sobre este antagonista estava errado. Em vez de alguém disposto a tudo para lograr seus objetivos e tornar realidade seu sonho último, agindo com toda a mesquinhez do mundo sempre que necessário, Askeladd é alguém de alma nobre e está na verdade de prontidão para sacrificar até a si mesmo em prol de uma aposta de grande valor que envolve a continuidade da subjugação de vários povos ou a possibilidade de um novo tipo de reinado que daria ao mundo inteiro uma vida mais... humana. Acabamos por ver Thorfinn reconhecendo - sem admitir, claro - que acabara tendo nele um espelho e um exemplo, não só um inimigo a ser derrotado. E acabamos por ver ambos mostrando mais uma vez que esta série tem personagens humanos e reais. Pessoas como cada um de nós;
4 - Enfim, visualmente e sonoramente falando dessa vez, temos um trabalho praticamente impecável. O estilo, o traço, a coloração, a animação, a fluidez, os efeitos computadorizados, tudo é um banquete para os olhos. Cada quadro, cada movimento, cada pixel é uma obra de arte. Do simples cair da neve em uma noite clara ao soprar de uma tempestade, do bater de duas lâminas ao conflito generalizado de uma guerra que envolve milhares de soldados simultaneamente, cada cena possui a mesma dedicação e o mesmo nível de trabalho empregado. Os elementos sonoros e a trilha musical encaixam-se perfeitamente e acompanham cada batalha ou cena emotiva como em uma orquestra. Isso para não falar das aberturas e encerramentos que possuem também toda essa sintonia sincronizada e orquestrada para nos trazer o spoiler de toda a emoção que o arco em que estamos da série irá nos contar. Se há algo relativamente negativo para apontar é o conflito linguístico da série. Há, neste momento em que escrevo, apenas a dublagem original em japonês disponível. Em alguns momentos, vemos personagens falando línguas diferentes - ou veríamos, se na verdade todos não estivessem falando apenas em japonês. Por exemplo, Thorfinn dialoga em nórdico com francos que não entendem nada. Estes por sua vez replicam em francês vulgar ao protagonista que também não faz ideia do que está sendo dito. Porém, todos eles falam em... japonês. Fica um pouco menos vívido e tira um pouco da precisão tão aclamada mesmo por mim nessa resenha. Mas não é algo que manche o trabalho. Só podia ter sido melhor executado. Bom, nada que uma redublagem não possa corrigir. Ou, pelo menos, uma legendagem descritiva que informe ao espectador que os personagens alternam entre línguas nórdicas, inglês médio e francês vulgar em alguns momentos. Ver todos falando em japonês e ao mesmo tempo dizendo "o que é que ele disse?" - "não sei, não falo essa língua" é estranho apesar de compreensível.
Em minha humilde opinião, o produto final de tudo isso é uma obra-prima atemporal que entrará para a história dos animes. Vale a pena cada um dos 450 minutos. E como escrevo logo após assistir durante esta quarentena devido à pandemia de corona vírus, acredito ser excelente tempo para todos os curiosos darem uma chance.
A resposta para a pergunta "Vinland Saga é tão bom assim?" é o título do meu texto. SIM, MEUS AMIGOS! É GENIAL!
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