
a review by M1xY

a review by M1xY
No mar de Beoluska, em uma ilha descoberta há cerca de 1900 anos, foi estabelecida a cidade de Orth. A cidade foi construída envolta de uma enorme e estranha cratera que se estende até as profundezas da Terra, chamada de Abismo. O Abismo abriga artefatos e vestígios de civilizações há muito desaparecidas, além de criaturas únicas, tornando-o assim um local de grande atração para investigações pelos chamados Exploradores de Cavernas, indivíduos que se encarregam de árduas e perigosas missões de descidas de modo a investigar seus segredos. É neste cenário que se encontra Riko, uma menina nascida na cidade de Orth, e atualmente residente do orfanato Belchero, este que é responsável por abrigar e treinar crianças órfãs para serem Exploradores de Cavernas. Durante uma de suas expedições, Riko encontra-se com um robô com a aparência de um garoto, a quem ela dá o nome de Regu, o qual passa a fazer parte dos moradores do orfanato. Pouco tempo depois, Riko é informada de que artefatos enviados por Lyza, sua mãe e a maior exploradora dessa área, foram recuperados no fundo do mesmo. Entre esses itens está uma mensagem pedindo para que a encontre no fundo do abismo. Acreditando tratar-se de um pedido direto de sua mãe, Riko decide se aventurar no interior da cratera, partindo para uma jornada acompanhada de Regu. Mesmo sabendo dos riscos que corre, e do fato inevitável de que nunca mais poderá retornar à superfície devido à maldição do abismo, um mal misterioso e muitas vezes fatal, que se manifesta sob a forma de variados sintomas físicos naqueles que retornam à superfície, ela segue sua jornada desafiando esse misterioso mundo.
Antes de tudo, é importante avisar que essa review contém spoilers de determinados pontos de Made In Abyss que podem comprometer sua experiência. Por sua conta em risco, prossigamos com a análise.

A princípio, Made In Abyss te conquista por diversos motivos. Talvez pelo seu conceito original, por uma diversidade visual estonteante, ou simplesmente pela atmosfera aconchegante em seu início. Entretanto, o belo nem sempre é dócil, e uma aventura repleta de desafios e provações se inicia para aqueles que estão dispostos a abandonar tudo e mergulhar nessa jornada. A apresentação da história é dada através das constantes explicações acerca do que é o Abismo. Nós somos contextualizados da civilização que se atrelou em sua borda, um pouco do que há dentro e de como a economia que o envolve é baseada nisso, quem são os exploradores de cavernas, sendo esses divididos por classes de apitos, e do passado que envolve a Riko e de sua relação com o Abismo. Esse é o ponto em que se faz mais necessário ter paciência com a obra, pois gastam um bom tempo para dar todas as bases necessárias para entender aquele novo mundo e seu funcionamento, o que torna o ritmo consideravelmente mais lento nessa parte, mas que compensa ao situar melhor o telespectador na obra. Após essa introdução, somos enfim apresentados ao que de fato é o abismo e o quão implacável ele pode ser. Conceitualmente, o Abismo é muito forte. Ele é perigoso, violento e insensível. Mas é também bonito, encantador e emocionante. Essa dualidade entre fascínio e tensão rege toda a trama numa aventura em que o perigo é constante, ao mesmo tempo que sempre haverão brechas para sua contemplação. Sua concepção mistura inúmeros elementos que já conhecemos com ideias completamente novas, como rios e cachoeiras, florestas abertas, fechadas ou até mesmo invertidas, além de apresentar uma vasta variedade de ecossistemas, tudo isso sendo misturado de forma harmônica, o que gera encantadoras e desafiantes paisagens. Sua fauna e flora dão vida a todo esse cenário, com inúmeras espécies de animais e plantas completamente novas e diversificadas, que abrilhantam cada vez mais cada acontecimento, além de proporcionar a tensão e o perigo inicial que se faz necessários para que comecemos a compreender as possíveis situações perigosas que os dois podem enfrentar num futuro não tão distante. Todo esse trabalho de criação não se trata apenas de criar um local onde a trama possa acontecer, mas de conceber um espaço credível e com sua própria identidade, para que assim, o espectador consiga sentir que aquele mundo é real, aceitando e se envolvendo nas mais diversas experiências que virão pela frente.
As dificuldades do Abismo são inúmeras. Por ter sua divisão feita por camadas, cada vez que nossos protagonistas vão mais a fundo, um ecossistema completamente diferente do anterior é apresentado e novos desafios surgem para dificultar ainda mais a jornada. E mesmo com todo o conhecimento que eles têm das mais diversas situações que podem acontecer, o abismo se mostra cada vez mais inovador, punitivo e cruel. Logo, é completamente normal pensarmos que duas crianças nunca conseguiriam chegar tão longe num local onde nem adultos devidamente treinados conseguem com facilidade. No entanto, a idealização da obra foi suficientemente inteligente nesse ponto para conseguir contornar isso sem qualquer desculpa esfarrapada ou sem sentido. Graças a fisiologia mecânica do Regu, um arsenal com diversas funções acabam ajudando-os na descida e no enfrentamento do Abismo, o que facilita ao ponto de tornar completamente crível a jornada de ambos. Por outro lado, a utilização de sua maior arma o torna incapaz de prosseguir por um determinado tempo, o que não só adiciona mais dificuldade, como também pede por um gerenciamento estratégico de cada recurso que eles têm. Momentos bem intrigantes são criados graças a esse ponto, onde vemos Regu e Riko tendo que pensar nos mais variados planos para conseguirem prosseguir da melhor maneira possível. Porém, quando inevitavelmente tudo acaba dando errado, situações complicadas são adicionadas sendo acompanhadas de uma grande tensão e desafios de tirar o fôlego, para que assim, eles possam provar que conseguem ir além nessa aventura, aumentando ainda mais a credibilidade da situação em que se encontram.
Tal credibilidade só é possível graças ao trabalho exemplarmente bem realizado do estúdio Kinema Citrus e da direção atenciosa do Kojima Masayuki. O Abismo pode até emanar vida, mas isso não se deve apenas ao seu conceito gigantesco, como também pela sua execução primorosa. A direção é consistente e reforça os pontos positivos do material original, trazendo um maravilhamento visual impecável. Os cenários exalam altos níveis de detalhes, os designs dos personagens são simples, mas únicos e memoráveis, e o visual das criaturas do Abismo é extravagante e exótico. Aliás, a escolha de design dos personagens traz um contraponto valioso a narrativa. Graças as feições mais infantis, inicialmente acreditamos que essa será uma aventura tranquila e sem muitos perigos reais. Logo, ver cenas tão angustiantes quanto tentar cortar um braço fora quebram completamente essa expectativa, transformando a experiência em algo muito mais envolvente. Além disso, faz-se um uso inteligente de inúmeras sequências que demonstram toda a imponência do Abismo para com quem o desafia, enquanto ressaltam o quão deslumbrante ele pode ser para quem se propõe a admirá-lo, aumentando as expectativas depositadas nele. Por sua vez, as transições de camadas refletem o quão preocupado estavam, sempre prestando o máximo de atenção em cada detalhe para que se mantenha uma lógica de funcionamento constante, tornando cada vez mais o Abismo em algo próximo da nossa realidade. Essa atmosfera realística e atrativa só foi possível graças aos esforços dos membros de sua produção, que não acabaram deixando de lado seus princípios, mantendo a qualidade durante todo o show, independente do quanto de esforço fosse necessário para tal feito.
A sexualidade também é outro ponto a ser abordado em Made In Abyss. Parece um absurdo bem comum em animações japonesas vermos personagens infantis sendo sexualizados em detrimento de um fetiche, esse que vem sendo um dos lados mais falhos da indústria de animes, que é a normalização do absurdo. Porém, definitivamente, não se pode dizer que é uma falha aqui pela forma como isso é atrelado a narrativa. A infância é um período de descobertas, durante a qual o indivíduo ganha conhecimento sobre si mesmo e do mundo ao seu redor. Com isso em mente, a sexualidade em Made In Abyss é explorada, mas isso nada mais é do que um impulso natural pelo desconhecido, algo que também sustenta essa fascinação pelo abismo. Descobrir e analisar aquilo que não se tem conhecimento é uma das características que sempre moveu a Riko em seus experimentos e descobertas, logo, o descobrimento do corpo alheio é algo que naturalmente seria abordado, mas felizmente, não sendo feita de maneira fetichizada. Por vezes sendo estimulada como método científico ou então por uma simples curiosidade pelo corpo alheio, mas sempre com sua importância a narrativa, e nunca de forma gratuita pelo "bem" do fanservice. E por mais que piadas de duplo sentido sejam feitas constantemente nesses momentos, todas são feitas de um modo respeitoso e que provém de uma inocência natural dessas crianças, que se sentem envergonhadas pela situação que são expostas, mas que não demonstram ter malícia alguma em suas mentes, sendo algo completamente normal da fase que estão passando. Corrobora com suas idades, abrilhante vários momentos, além de ser uma ótima válvula de escape para aliviar a tensão em certos momentos que se faz necessário.
Entretanto, mesmo quando a tensão se faz ausente, outro elemento surge para tomar seu lugar e se tornar o grande centro das atenções, esse sendo a melancolia que os acompanha nessa jornada. Ao longo de seu caminho, cada personagem que encontram e se apegam antecede uma despedida marcante. Seja um simples e singelo adeus, até um pedido sincero de que desistam e voltem para casa. Tudo isso alimenta ainda mais uma atmosfera depressiva, o que torna completamente compreensível uma sequência final voltada mais para esse lado. Em meio a tantos desafios que o Regu teve que enfrentar para seguir, o maior deles tomou a forma de um única escolha próximo ao fim, matar ou não a Mitty. Não se fez necessário um clímax grandioso para encerrar essa primeira fase da jornada, sendo suficiente apenas a necessidade de uma tomada de decisão. Após ser apresentado de toda a história, entender todo o sofrimento que a Nanachi e a Mitty tiveram que suportar juntas torna toda a situação em que ele se encontra num clímax digno para tal momento, e decidir entre dar o descanso ou apenas deixar de lado ainda se mostra agregador para o amadurecimento do Regu, que tenta levar o sentimento de todos em consideração para tomar a decisão mais impactante de sua vida... Matar alguém que um dia, já foi um humano.
Essa melancolia também é retratada através de sua trilha sonora. Essa é uma das áreas mais fortes de Made In Abyss, pois cada faixa parece ter a força necessária para acompanhar cada momento. Por exemplo, quando "Tomorrow" é utilizada na sequência final, vemos toda a jornada que os dois tiveram que passar, e, ao mesmo tempo que isso demonstra o quão longe eles já foram, a música adiciona uma certa melancolia pelo que tiveram de passar e pelo que deixaram para trás, no Abismo ou fora dele. Porém, próximo ao fim da música, o tom sombrio dá espaço a uma esperança. Com o novo membro que entende mais sobre o ambiente que estão, a esperança de que iram concluir sua missão dentro do desconhecido se agrava, e a música acompanha tal sentimento, encerrando com uma percepção otimista do que será a continuação dessa jornada. Essa é apenas uma das forças que a trilha sonora de Made In Abyss tem, mas só ela já demonstra o quão poderosa e cirurgicamente precisa pode ser, sempre agregando a cada intenção da cena. O que Kevin Penkin fez em sua criação só é possível através da liberdade que teve para fazer a composição dessa trilha sonora, sem amarras de estilo musical ou algo do tipo, fazendo assim, um mix de instrumentos em cada uma de suas faixas musicais, que entendem e ampliam cada emoção sentida.
Por último, mas não menos importante, devo ressaltar que uma das grandes qualidades de Made In Abyss é o seu grupo de protagonistas. Inicialmente, temos Riko e Regu, que podem ser apenas crianças, mas isso não lhes impedem de serem cercados por vários mistérios a cerca do Abismo. Com uma personalidade mais ativa, a Riko representa o cérebro da missão. Graças ao seu grande interesse pelo Abismo, isso lhe rendeu um enorme conhecimento sobre o mesmo, o que faz com que ela saiba muito sobre o seu funcionamento e das espécies que lá habitam. Por sua vez, o Regu é fundamental para a realização dessa jornada. Além de ter funções que facilitam na descida do Abismo, a defesa e garantimento de recursos é toda feita através dele, buscando ao máximo proteger sua companheira, mesmo que eventualmente não consiga realizar isso da melhor maneira possível. Por último, temos a Nanachi que é apresentada na parte final e que se une nessa aventura, uma vez que perdeu seu propósito de viver após a Mitty morrer, mas que acabou vendo na aventura dos dois, um novo recomeço. O Abismo definitivamente não é um lugar para três crianças, mas a própria missão está fazendo o papel de ensiná-los isso, o que dá um senso gradativo de amadurecimento para eles.
Made In Abyss representa um grande misto de emoções. Com uma direção consistente, trilha sonora poderosa e enorme atenção aos detalhes, esse acabou se tornando um símbolo inquestionável de qualidade quando se fala de aventuras, ao entregar uma jornada cada vez mais ameaçadora, mas que, ao mesmo tempo, consegue ser fascinante. No começo, uma atmosfera mais convidativa reinava, erguendo uma sincera admiração pelas belezas inestimáveis do Abismo. Porém, quanto mais fundo iam, mais a melancolia de deixar algo para trás tomava conta, junto do sentimento de seguir adiante sem nunca mais poder olhar para trás. Essa não é uma jornada fácil, e tudo que eles passaram só tende a piorar num futuro cada vez mais próximo, mas a percepção de que conseguiram completar a primeira parte do que parecia ser impossível lhes dá mais esperança de que podem realizar sua missão, o que os motiva cada vez mais a ir mais a fundo nos mistérios que o Abismo esconde. Uma epopeia que, sem qualquer dúvida, ficará marcada no coração de quem estiver disposto a mergulhar no Abismo.
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