Hoshi No Samidare ou Lúcifer e o Martelo, como foi lançado no Brasil, é um mangá seinen que frenquentemente aborda a concepção do shounen segundo uma intenção disruptiva e, diria eu, até recreativa. O direcionamento demográfico - no que diz respeito principalmente à faixa etária - transita em linhas tênues entre clichês consagrados em mangás de luta para o público infanto-juvenil e investidas, das mais superficiais às mais profundas, em temáticas mais "maduras" de drama e filosofia.
Tendo isso em vista, consigo ver que a questão levantada pela obra, como um todo, é justamente essa: crescer. Com o amparo de um artifício quase metalinguístico de uma concepção e apresentação caricatas e de uma trama psicológica mais complexa, o mangá consegue se expressar tanto pela sua faceta jovem, como pela adulta. Na história, por exemplo, é sucedido um desenvolvimento lúdico que traz elementos narrativos e gráficos típicos de uma cultura shounen mainstream (Lutas entre o grupo de heróis contra sucessivos chefões, poderes psíquicos, piadas pautadas na expectativa de momentos vexatórios e até doses incômodas de um certo ecchi) e outros que levam a dramaticidade bem mais a sério (Relativos principalmente a conflitos internos de cada personagem). É justamente nessa coexistência que existe a transição para a maturidade. Acho importante falar especificamente de "maturidade" para não existir abertura para uma interpretação restrita sobre adolescentes atingindo a maioridade, afinal a história conta com personagens em distintas fases da vida (Há pré-adolescentes, adolescentes, jovens-adultos e adultos).
A concepção do crescimento é referenciada através da sucessão de dilemas, ou dramas humanos, pelos quais as personagens vivem e, eventualmente, superam. Apesar de não haver comedimento por parte do autor na hora de conceber o conjunto de problemáticas - às vezes um tanto irreais - na vida de seus heróis, a mensagem transmitida consegue ser um pouco mais tangível. São circunstâncias passíveis de serem traduzidas para cenários e sensações reais, como a ausência, solidão, incerteza, insegurança, arrependimento, culpa e depressão, com os quais os leitores e leitoras podem se identificar com maior facilidade. É retratado, ao longo do processo de desenvolvimento das personagens, a forma pela qual essas figuras, que por vezes estão imersas em introspecção nos seus próprios problemas, conseguem encontrar esperança através de uma relação afetuosa com outras pessoas igualmente atormentadas. Obviamente as coisas não são tão simples assim no mundo real, mas isso ajuda a ilustrar, de maneira até mesmo leve, o valor da vida e do auto-cuidado como forma de lutar pelo que é importante a todos nós.
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