É espantoso como uma mesma obra consegue impactar o público em diferentes aspectos. A produção humana é carregada de significado e, presumivelmente, segue a finalidade de transmitir algum tipo de mensagem, igualmente significativa. Ademais, o entendimento sobre uma criação pode levar à perspectiva de seu contexto nos sentidos mais amplos, como aqueles atravessados pela espacialidade, temporalidade e cultura, por exemplo. No campo da cultura acho que podermos inserir as pessoas, interpretando-as segundo sua coletividade, assim como pela sua individualidade.
Shoujo Shuumatsu Ryokou, ou Girl's Last Tour, como foi serializado no ocidente, é um mangá de 2014 que foi posteriormente adaptado para anime. Se trata de uma obra bastante imersiva de um universo misterioso e desconhecido no qual duas garotas lutam para sobreviver. Sua história rende inúmeras reflexões aos leitores e leitoras na medida em que cada capítulo propõe discussões diferentes sobre assuntos humanos diversos. Contudo, longe de querer apontar o significado de cada elemento apresentado - experiência que eu acredito que valha a pena ser vivida pela pessoa interessada através da leitura - resgato meu interesse por questões paralelas, sempre destacando as sensações e provocações que a obra me causou.
Para mim, foi importante ter o primeiro contato com Girl's Last Tour por meio do mangá, pois acredito que seja uma forma de conexão entre público e criador mais pura, já que não conta com a interferência de possíveis agentes intermediários mais diretos, como no anime. E nesse caso foi bem difícil deixar de pensar na autora enquanto eu segui com a leitura, porque ela esteve presente constantemente, de inúmeras formas. Igualmente misteriosa, a autora se apresenta apenas pelo pseudônimo de Tsukumizu e possui outras pouquíssimas informações expostas na internet além de sua conta no Twitter. Não cheguei a me aprofundar muito entre o fandom dela ou de alguma de suas obras específicas, mas vejo um certo engajamento em debates relativos à natureza de Girl's Last Tour e até à saúde mental. São recorrentes algumas questões como: "a obra realmente encaixa no gênero em que ela é normalmente rotulada - iyashikei?" ou "como será que a autora de sente após escrever o mangá?"
Iyashikei é um termo empregado para descrever obras japonesas comumente associadas à reprodução de fragmentos contemplativos da vida mundana e suas cenas cotidianas, como uma ramificação do slice of life. Seu significado literal está direcionado ao objetivo de "curar" o público através da transmissão de uma espécie de paz interior. Sendo assim, persiste a dúvida de como um mangá que retrata uma realidade pós-apocalíptica, desolada e artificial pode transmitir de fato essa paz? Indo mais além e levando em consideração a arte como forma de expressão e comunicação das emoções internas, de fato existem indicativos nessa obra de que autora alude a ideações suicidas ou representações da morte como algum refúgio para mágoas contínuas?
Nenhuma das questões são fáceis de serem respondidas. O que se pode fazer é acreditar nas nossas interpretações. Nada é muito objetivo, inclusive o mangá, mas eu acho que ele olha para o mundo sob uma perspectiva interessante, de dentro para fora. Acompanhando a jornada das protagonistas, os leitores e leitoras são obrigados e entender o mundo, como um todo, de forma invertida, partindo do fim para o começo. Afirmando isso, eu me refiro tanto ao enredo da obra - uma vez que nos deparamos com uma cidade totalmente destruída, ou seja, que já teria chegado ao seu fim, sem saber os motivos que levaram a essa ocasião - quanto ao significado das coisas diversas. Por vezes é comum encontrar as personagens se perguntando o que são objetos ou conceitos comuns em nosso dia-a-dia, como barcos, livros, chocolate, arte, música e passado. Isso tudo não é porque elas estão desejando criar debates filosóficos intencionalmente, mas porque realmente não sabem o que é, nunca viram/ouviram ou se esqueceram do significado. Esse tipo de reflexão é muito rico por conta de sua pureza, é uma análise intensamente introspectiva. Não se tratam de reflexos perfeitos dos conceitos estabelecidos sobre elementos pertinentes em nossas vidas, e sim de uma tentativa - ás vezes até falha - de entender o mundo, através de um fluxo de consciência.
É o tipo de história que talvez não se distancie tanto do caminho o qual nossa civilização vem tomando. Condicionada à sua própria efemeridade, a humanidade tentou se perpetuar na artificialidade e, principalmente, na materialidade da tecnologia, como desejo de alcançar sua autonomia. A independência, todavia, desvinculada de sua conexão com a vida no planeta, entendido como um organismo vivo e unificado, pode levar à busca por poder, e o conflito de interesses entre sociedades, à guerra. Com isso, o futuro acabou marcado pela destruição e a evolução demonstrou ter sim um limite. Em meio à aniquilação, o que leva a história da civilização adiante é a materialidade, seja aquela presente em robôs construídos para realizar manutenção em outros bens tecnológicos antrópicos, em uma máquina fotográfica que guarda consigo uma breve narrativa da vida das pessoas - até ser repassada a novos proprietários - ou talvez através dos livros perdidos pelo caminho.
Pensar nesse tipo de previsão para nosso possível futuro parece, de fato, pessimista e até melancólico. Muita coisa se perdeu: as pessoas, o conhecimento, a memória, os afetos, a própria vida, como um todo. O pouco que restou segue à procura de algo desconhecido, conceito perdido no limiar do considerado "interessante" ou "assustador" pelas pessoas. No decurso dessa dubiedade, as personagens prosseguem com uma jornada distorcida em um esforço pela sobrevivência que, a princípio, não parece fazer muito sentido. Não existe uma busca precisa por um propósito em suas vidas que não seja a própria sobrevivência, pois mesmo a ambição do acúmulo de conhecimento e memórias através da longevidade não está isenta de se tornar um acúmulo de perdas. Nos deparamos apenas com pessoas buscando água, comida e combustível ou tentando sair da cidade, mas frequentemente deixando coisas para trás, fracassando em seus objetivos e tendo de recomeçar sua trajetória depois de seu esforço ter sido jogado fora, como o conflito expresso no Mito de Sísifo por Albert Camus.
Tsukumizu também manifesta suas frustrações por meio de breves posfácios apresentados ao fim de alguns volumes do mangá. Se trata de uma forma de conexão ainda mais direta com a criadora, na medida em que o público é defrontado com esboços da autora retratando a si própria em cenas do cotidiano - algumas caóticas - acompanhadas de um pequeno texto escrito a mão. Nesse momento, são apresentados monólogos melancólicos de alguém angustiado com a forma como a vida tem se sucedido. Pessoalmente considero bastante compreensível essa inquietude causada pelas lembranças do que já foi perdido ou pela incapacidade de se conectar com as pessoas e entendê-las. O mundo de fato é complexo e eu me sinto longe de saber se algum dia nós realmente compreenderíamos o significado de tudo isso.
A obra, contudo, não termina deixando como resultado o desconsolo, caso contrário não seria categorizada como iyashikei. O contraponto para o acúmulo de tanta dor pode ser o esquecimento ou sua abdicação, por exemplo. Tanto através de seus posfácios como em meio ao rumo de suas personagens na história, Tsukumizu assume a preferência por desistir de tentar entender o enredamento das relações humanas e deixar memórias de momentos saudosos serem esquecidas naturalmente, uma vez que ambos lhes eram motivo de sofrimento. Feito isso, resta a ela e a todos nós nos voltarmos ao que consideramos significativo, importante, ou seja, o que nos faça sentirmos vivos. Assim pode ser restabelecida a conexão, supostamente perdida, entre a humanidade e o mundo.
Em seu último posfácio, a autora afirma que, assim como as protagonistas da história, ela também deseja que o prazer por estar viva nunca tenha fim. Para Tsukumizu, essa vontade é um motivo de inspiração para continuar fazendo o que gosta e eu não elimino a possibilidade de o ser da mesma forma a qualquer um de nós. Arte também pode ser algo significativo em nossas vidas, assim como a companhia desse mangá se tornou para mim, principalmente nessa atual conjuntura de quarentena devido à pandemia do COVID-19. Em direção a um desfecho, acho válido extrair do próprio mangá a reflexão de como livros - eu ampliaria ao campo da produção humana de maneira geral -, retratando a realidade ou não, nos são valiosos, pois são testemunhos da vida e do pensamento das pessoas. Assim podemos alcançar uns aos outro, demonstrando que, de alguma forma, nunca estamos sozinhos.
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