A minha primeira leitura de um mangá do tão conceituado Osamu Tezuka não poderia começar de melhor forma. Conhecia por alto suas obras e acabei "caindo de paraquedas" nesse mangá em questão, tendo conhecimento que foi uma das últimas produções do mangaká. Destaco não somente o traço e estilo de desenho tão marcantes de um autor com uma duradoura e notável carreira nas costas, mas também o esmero de um contador de histórias emocionantes sobre nós e direcionadas a nós, seres humanos, nos mais amplos alcances do termo.
Adolf ni Tsugu, ou simplesmente Adolf, título difundido no Brasil como minissérie pela Editora Conrad, é um drama político que relembra episódios marcantes da Segunda Guerra Mundial na perspectiva de uma narrativa paralela sediada na cidade japonesa de Kobe e suas intermediações, a princípio. O processo de concepção do mangá esteve cingido em meio às fortes reverberações da conjuntura de "reabilitação" material e até moral do pós-guerra no mundo - ainda que, concomitantemente, a crueldade fosse mantida através de conflitos violentos instigados pelas potências da Guerra Fria. É sob esta influência que Tezuka constrói uma história abordando a correspondência entre relações civilizatórias, étnicas, culturais e humanas entre diferentes sociedades e o decurso de possíveis divergências políticas.
O eixo fundamental de ligação entre suas temáticas reside no conceito de pertencimento. O enfoque nos três Adolf's - Hitler, Kaufmann e Kamil - é responsável por atravessar essa concepção propondo cenários próprios. Do mesmo modo que existe uma forma de pertencimento forçado, como aquela perdurada pela imposição de um nacionalismo exacerbado e pela promessa de uma supremacia eugênica nazista, se difundiu, também, o discurso do "não-pertencimento" atingindo desde descendentes da miscigenação, até a totalidade de grupos étnicos.
Desde o começo das conquistas civilizatórias, sociedades passaram a ser, senão subjugadas, condicionadas à sina da diáspora. O decorrer dos acontecimentos, entretanto, nunca é simples e as investidas, da mesma forma, não são unilaterais. Diante disso, a Segunda Grande Guerra não foi o princípio e muito menos o fim desse processo. Exemplificada pela história na figura das três personagens, é transmitida a seguinte mensagem: enquanto houver um indivíduo estabelecido na condição de detentor do direito à opressão e imposição para com outro ser humano, serão mantidas relações de colonização e controle na civilização. Como resultado, historicamente, à semelhança dos Judeus e, posteriormente, dos povos Bascos, Curdos e Palestinos, remanescem os sujeitos sem qualquer resguardo ou pertencimento mesmo entre seus "semelhantes".
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