Aku no Hana me serviu como um importante exercício de reflexão e regressão a difíceis momentos da vida. Uma vez que experiências duras são intensamente marcantes, cada uma delas tem seu significado particular a cada um de nós. Diante isso, percebo que a forma de lidar com tais eventualidades é capaz de desencadear diferentes condutas e até constituir alguns traços de nossa personalidade. Acima de tudo, somos seres humanos e, pasmem, dotados de objetivos, virtudes, desejos e, da mesma forma, de medos, inseguranças e perversões.
Tal idiossincrasia residente da estrutura dos atos humanos vem sendo, assim como sua natureza complexa, um objeto de análise de inúmeras obras acadêmicas e literárias ao longo da história. Nesse contexto, prolonga-se a contínua alternância da expressão de uma qualidade humana ora exposta na racionalidade e na busca por uma essência ordenada e equilibrada; e ora manifesta na instabilidade de um ser dominado pelo ímpeto de suas próprias emoções. Em meio às inclinações apresentadas através das diversas escolas literárias conhecidas, as características do Simbolismo estiveram devidamente posicionadas em meio ao "conflito conceitual" referido, assim como um de seus principais representantes, Charles Baudelaire.
Felizmente, o estudo sobre a escola literária do Simbolismo compõe a grade curricular do ensino médio brasileiro - pelo menos assim foi durante em meu "tempo de escola" -, permitindo-nos, estudantes, um contato primário com um movimento ímpar. Para essa reflexão, falar de Aku no Hana é praticamente indissociável da referência a Baudelaire, não somente pelas múltiplas menções ao escritor no decurso da obra, mas também pela veemência de suas similaridades. Em vista disso, a escolha do autor do mangá, Shuuzou Oshimi, pela alusão ao livro As Flores do Mal foi muito consistente.
No início do texto, dei o devido destaque à palavra "perversão" com o propósito de reapresentá-la como um elemento central da obra. Oshimi nos apresenta essa temática segundo um significado que nos é facilmente atribuído à palavra, logo de imediato, o de desvio sexual. Entretanto, o seu conceito não é tão restrito, e o mangá nos permite analisar mais afundo suas correspondências mais abrangentes. Enquanto estiver inserido a um sistema social coletivo, o indivíduo permanece sujeito à conduta moral prevalecente entre seus semelhantes, favorecendo um convívio mútuo através da inibição de possíveis atos de corrupção ou, por fim, perversão. Por meio dessa constante retração de atitudes, por assim dizer, imorais, os seres humanos acabam condicionados à qualidade de "pessoas normais", termo - entre outros - utilizado pela personagem Nakamura.
O conflito, conquanto, consiste na forma como cada um consegue lidar com tal inibição. Existem pessoas que dispõem de maior traquejo social para adaptarem-se a um convívio interpessoal envolto de condutas morais e pessoas que não obtiveram o mesmo sucesso. Essa inadaptabilidade, por vezes, resulta em indivíduos introspectivos, incapazes de conectarem-se com o próximo e, consequentemente, solitários. Enquanto não há uma estabilidade do ser com angústias e perturbações internas, a solidão pode conduzir à infelicidade.
Neste ponto manifesta-se uma das partes da substância humana que Baudelaire e outros simbolistas apontaram em suas obras. Se trata do indivíduo intensamente emotivo, devasso, corrompido, hedonista, mas também, solitário e introspectivo. Esta é a solução encontrada pelos protagonistas Kasuga e Nakamura: buscar, mesmo que à força, por um cenário no qual possam agir de acordo com sua "perversão natural", distinguindo-se das demais pessoas, aqui tratadas como escória. A proposta não é nada simples e a sua execução, como é de se esperar, é mais difícil ainda. Chega à compressão dos leitores e leitoras que agir em favor total da depravação pode ser tão duro quanto reprimir as atitudes imorais por completo.
O caminho é sempre difícil. A corrupção dessas "flores do mal" nos guiam em encontro às nossas maiores imperfeições e dores, porém, devo ressaltar, não nos torna únicos. Assim como é importante ter autoconsciência e maturidade no momento de reconhecer e retificar os erros, é também significativa a autopiedade. As "flores do mal" também compõem o âmago da existência humana, por isso cabe a nós a árdua tarefa de aprender a conviver com elas.
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