
Em inícios de 2019 vi o meu feed de Facebook a ser invadido de imagens de um certo anime.
Eram imagens engraçadas, frames tirados sem contexto, sempre com raparigas jovens e adoráveis a fazer das suas. Após uma pequena pesquisa dei com o nome do anime, ‘Watashi ni Tenshi ga Maiorita!’, ou, como é conhecido em inglês, ‘Wataten’. Pareceu interessante, havia algo que me chamava para o experimentar, mas nunca passou dessa pequena vontade… Até este mísero ano 2020 chegar.

As imagens de ‘Wataten’ continuam a invadir as redes sociais, ainda a serem usadas como meme, mesmo com muitas pessoas, incluindo eu, que as postam sem ter visto o trabalho original. A curiosidade aumentou, muitos diziam que o anime era mau, outros diziam que era mediano, eu, simplesmente disse, ‘Ok, vamos a ver de que é que se trata’.

Quando comecei a ver deparei-me com uma personagem bastante introvertida, talentosa, medricas, pervertida, duvidosa, mas com um grande coração. Miyako é o seu nome, a estrela deste enredo, do qual mais um grupo de três raparigas fazem parte, a sua facilmente excitável irmã Hinata, a calma e muitas vezes ‘voz da razão’ Hana e a feliz e adorável Noa.
As quatro são as personagens fundamentais para isto funcionar. A história, em resumo, trata de nos mostrar a Miyako, uma personagem que é ‘Shut-in’, uma estudante universitária, sem amigos, que adora o seu hobby de costurar vários fatos e acessórios para cosplay, mas raramente fabrica algo para si, pois não sente confiança necessária para os usar. Costura sim fatos mais pequenos, indicados para raparigas novas com a idade e uma estrutura semelhante à de Hinata.

Num dia fatídico, a sua irmã traz uma amiga, Hana, que traz um misto de emoções que Miyako nunca tinha sentido posteriormente, o seu lado introvertido estava a ser rapidamente consumido pelo seu lado mais pervertido ao ver a criança que aos seus olhos era perfeita para experimentar os seus variados fabricos.
Facto é, que, Hana não gosta muito da ideia e muito menos da forma como Miyako olha para si. A criança, todavia, entra nos planos, pois mesmo tentando estar séria nesta situação, não consegue recusar os belos doces que Miyako confeciona e que usa para convencê-la a vestir os seus figurinos. Noa é a nova vizinha da nossa família principal e entra na história após ver Miyako da sua janela a experimentar um dos seus fatos de tamanho adulto, algo que não costuma fazer devido ao seu embaraço pessoal.

Para muitos este episódio pode causar um pouco de desconforto, sendo que vemos uma adulta a olhar para crianças de uma forma amorosa demais, ao ponto de nos sentirmos seguros de a chamar de pedófila, uma pessoa que não devia de todo estar perto delas, mas à medida que vemos a série percebemos que não é bem assim. Miyako vê nestas crianças a juventude que outrora podia ter tido caso não tivesse problemas sociais. Elas são as suas amigas durante a série, são as pessoas com quem vai passar grande parte do seu tempo, são com quem se vai divertir, falar, passear e lanchar.

Contudo, não deixa de ser um pouco bizarro o que passa na cabeça dela por vezes, especialmente quando num episódio é lhe dado uns bilhetes de “Poder fazer o que quiser” das raparigas e vemos uma reação bastante pervertida da sua parte, se bem que nunca é explicito o que faria com eles. Algumas partes da história são por vezes repetidas até à exaustão, como a previamente mencionada chantagem de doces com a Hana, em quase todos os episódios é mencionado isso e o facto da reação da Noa e da Hinata não mudar muito mesmo com alguns pedidos extremos da Miyako.

Escusado será dizer que, para mim, isto não é caso para deixar de ver o anime. As várias situações diferentes em que as personagens se metem, o resto do cast que aparece para reforçar na história, como por exemplo a amiga da Miyako, Matsumoto, que nunca tinha sequer falado com ela e as colegas de turma da Hinata, a Kanon e a Koyori, e, como me poderia esquecer de mencionar, a comédia. Este anime é daqueles que nos deixa com um sorriso de orelha a orelha, mesmo nos momentos mais preocupantes para as nossas personagens, com alguns risos à mistura, o que é reforçado pela animação.

A animação deste anime é fenomenal, funciona perfeitamente com o humor e ajuda a dar mais enfâse às piadas, as personagens conseguem alterar o seu estilo visual em qualquer situação, sendo ao deformar-se ou a ficar com riscos mais carregados no desenho, tudo ajuda, especialmente quando no meio disto tudo tens uma animação extremamente suave com momentos que me põem a questionar em como raios é que um anime destes tem tanta qualidade a esse ponto.
Visualmente é bastante apelativo ao olhar, sendo que as personagens têm um estilo simples e imediatamente reconhecível, tem um shading que torna as personagens brilhantes, o que dá aquela ideia deste mundo ser uma fantasia ideal para a nossa personagem principal, os cenários fazem contraste suficiente com o que se passa à frente e têm uma textura semelhante a um lápis de cera, se bem que é apenas sobreposto aos fundos, pois são desenhados digitalmente como o resto do anime. A presença de CG é apenas limitada aos raros veículos que apareciam.

Algo que eu queria falar um bocado também, em específico, era sobre o último episódio, nomeadamente a primeira parte, onde as raparigas atuam na peça de teatro. Essa parte está extraordinária, não só a animação, mas também musicalmente. As vozes das raparigas e a música que acompanhava foram perfeitas, diria que esta deve de ter sido a parte com mais qualidade deste anime.

Overall, recomendo este anime, mas, com precaução. Há pequenas coisas que podem chatear e incomodar o espetador, tal como aquele enfâse nos gostos mais pervertidos da personagem principal ou em algumas coisas que são usadas em demasia na escrita do anime.
É um anime bastante puro e adorável que conta com as pequenas histórias diárias deste grupo de personagens, mas aconselho a verem pelo menos 2 episódios para verem se é para vocês ou não.

27.5 out of 30 users liked this review