




#Informações e Avisos:
𝟭.
Essa análise é, majoritariamente focada na nova versão de 2011 do estúdio MadHouse. Vão haver poucas menções ao mangá de 1998, escrito e desenhado por Yoshihiro Togashi.𝟮.
A análise contém spoilers moderados sobre a obra.
𝟯.
OS termos "HXH", "HxH, e "hxh" serão usados na análise para se referir ao anime em questão. Isso irá ajudar na dinâmica da leitura e no ritmo da escrita.

#Introdução
Hunter x Hunter é um mangá de 1998 escrito e desenhado por Yoshihiro Togashi. O anime recebeu duas adaptações, feitas por dois estúdios diferentes. A primeira de 1999 e a segunda de 2011, que é qual nós a análise irá focar-se.

#Primeiro Episódio e Motivações:
A história de HxH começa com uma simples introdução, mas desde os primeiros minutos do anime, já podemos ver uma competente direção de arte que perdura durante a esmagadora gigantesca maioria dos episódios. Logo nos primeiros minutos, o anime apresenta toda a determinação do protagonista e os mistérios que o universo da obra esconde. Gon, um menino de 12 anos, quer apenas conhecer o próprio pai, que o abandonou ainda quando Gon era um bebê. Quer virar um Hunter, alguém que viaja o mundo em diversas missões perigosas, etc.
Para mim, HxH tem um sólido primeiro episódio em vários sentidos, que ainda consegue servir a toda a gradual construção que o anime tem no próprio gênero e dos seus próprios clichês. Não só o seu protagonista central, mas todo o universo e situações são introduzidas da clássica forma do Shonen.
O protagonista é inocente, esperançoso, confiante e corajoso. Com poderosos valores de amizade, companheirismo e amante da aventura. Para mim, um dos maiores valores do Gon, e até mesmo dos outros protagonistas, é a forma com que eles são "fiéis" aos seus arquétipos, fiéis ao que realmente são e representam na obra. Gon é uma criança, age como uma criança, é ingênuo como uma criança criada da forma na qual ele foi criado. Claro que a obra apresenta um protagonista com condições físicas sobre-humanas, mas isso é algo do gênero e um fator que se deve atribuir a suspensão de descrença. Gon não é mais maduro do que a sua idade pede, não tem grandes objetivos ou uma inteligência inacreditável. Ele é um menino criado em uma ilha simples, com pessoas simples, de uma forma simples, e ele segue isso durante todo o percurso da obra.


O primeiro episódio é sim, regado de situações tradicionais, convenções do gênero. Situações que, a princípio, podem ser algo incomodativo para os críticos de Shonen. Porém, desde o princípio, o anime consegue mostrar a poderosa mão de uma boa direção, uma grande animação feita por um talentoso estúdio. O anime de 2011 começa já em um forte tom de aventura, tentando ao máximo colocar o espectador nesse clima de “suspense” e expectativa.
A decisão de cortar a cena inicial de Gon com o Kaito, prejudicou a obra, mas imagino que foi correta a escolha de tirar esse momento do primeiro episódio. Para mim, a melhor opção seria colocar ela no início do segundo ou em qualquer outra situação do princípio do anime, mas não no primeiro episódio. Encaixar essa cena no primeiro episódio poderia quebrar o clima aventuresco e toda a intenção do primeiro episódio.

#𝗢𝘀 𝗤𝘂𝗮𝘁𝗿𝗼 𝗣𝗲𝗿𝘀𝗼𝗻𝗮𝗴𝗲𝗻𝘀 𝗣𝗿𝗶𝗻𝗰𝗶𝗽𝗮𝗶𝘀:
Assim como Gon, os outros três personagens principais são apresentados da clássica forma do Shonen, com clássicas determinações, personalidades e intenções. Mas assim como o Gon, os personagens são fiéis a eles mesmos, fiéis a tudo o que eles representam na narrativa. Agora, vou mencionar cada um dos protagonistas e explicar o motivo deles serem fiéis a eles mesmos, evitando spoilers de arcos futuros que serão mencionadas posteriormente nesta análise.


#Killua.
O Killua é um personagem curioso e que tem todas as possibilidades para ser uma "péssima" adição a narrativa. Ele poderia, facilmente, ter sido um personagem clichê "trevoso", assassino e cruel. Mas no fim das contas, o Togashi consegue driblar isso de forma magistral. Sim, Killua é muito forte, treinado, inteligente, experiente mesmo tendo só 12 anos. A "desculpa" do passado de assassino é algo que se leva para suspensão de descrença, mas esse não é nem o ponto onde eu quero chegar. Killua, mesmo tendo toda essa carga obscura, esse histórico de assassino, continua sendo uma criança. Continua tendo atitudes infantis, se divertindo de forma infantil e interagindo de forma infantil com Gon e com as situações em volta.


#Leorio.
Talvez a construção do Leorio seja a segunda mais interessante quando falamos do quarteto principal. Leorio é fraco, não sabe lutar, não é a pessoas mais inteligente e o Togashi não esquece disso, não subestima isso. Togashi trata Leorio como ele é, não coloca o Leorio fazendo grandes feitos que ele não é capaz. Algo extremamente comum de se encontrar nas obras desse gênero é justamente o contrário disso: um personagem fraco, com poucas capacidades fazendo algo completamente incoerente, fazendo algo que ele simplesmente NÃO CONSEGUE. Leorio ajuda da forma que pode, de uma maneira mais "diplomática", no possível e de forma condizente com a personalidade do próprio.


#Kurapika.
Kurapika, assim como Leorio, aparece pouco durante todo o anime. Porém, Kurapika acrescenta MUITO a toda a narrativa, sendo o "protagonista" de um dos melhores arcos da obra. Kurapika é inteligente, estratégico, obstinado, focado, etc. Kurapika vai por um lado simples, um lado fácil de conquistar o espectador: procura se vingar por conta do assassinato do seu povo. Vai dar tudo para conseguir esse objetivo, até mesmo arriscar a própria vida.
Algo que acrescenta muito ao personagem é a completa devoção dele, se entregar por completo a vingança, renunciando a quase tudo por isso. Isso adiciona camadas ao personagem, adiciona realismo e maturidade as decisões. O fato de colocar sua vida em jogo, de poder apenas usar parte dos poderes nos membros da Genei Ryodan, agrega valor as motivações.


Nessa parte da análise, irei, a princípio, falar brevemente sobre os arcos da obra, dando foco a pontos e momento relevantes, onde podemos exaltar e criticar o anime.
#Exame Hunter.

Eu ainda estou tentando entender como algumas pessoas conseguem desmerecer esse arco ou até mesmo diminuir a sua qualidade. O Exame Hunter é o melhor exame já feito em um Shonen, o mais bem executado, o mais bem pensado. O Exame de Hunter x Hunter tenta, e consegue perfeitamente, explorar diversos campos de "O que é ser um Hunter". Não se limita a confrontos baratos de comparação de força, a um nivelamento sem sentido e a forçadas conveniências. Logo no primeiro arco, Togashi mostra o gigantesco talento que tem para criar situações, a gigantesca criatividade que ele exala durante toda a obra.
Algo interessante sobre todo o arco é a forma na qual ele evolui dentro de si mesmo. As primeiras provas são simples, mas já mostrando como não seria nada convencional. O "não convencional" leva a obra a uma corrida e um concurso de culinária. Porém, conforme o arco vai evoluindo, conseguimos ver como ele escala gradualmente dentro de si mesmo, como ele evolui as provas, as tornando mais complexas e interessantes. A prova na torre é a primeira que realmente me chamou muita atenção, a forma na qual o Togashi simplesmente ignora o perfeito cenário de lutas e cria desafios lógicos. Outra situação interessante é como o Togashi já apresenta toda a inteligência que rege o anime. De estatísticas de Pedra, Papel e Tesoura, a estratégias e decisões bem pensadas.
A prova da Ilha é facilmente o ápice do arco, a ideia mescla algo que HxH faz muito bem: tratar a simplicidade de forma complexa, acrescentar complexidade a conceitos simples. A forma na qual os personagens são desenvolvidos durante todos os segundos, mostrando suas personalidades, mostrando como eles reagem a todos os desafios e mostrando como cada um deles é único. Novamente Togashi ignora o cenário de lutas e traz algo melhor, algo mais real e envolvente. Gon não sabe lutar, não consegue ganhar em um confronto, então ele não luta. Ele reconhece suas limitações, reconhece que seu inimigo é grande e precisa usar estratégia. Togashi não coloca os seus personagens para fazer algo que eles não conseguem, nem algo que eles não fariam. A obra também mostra como existe uma grande disparidade nos participantes, como existe toda categoria de força na ilha. O momento em que Kurapika e Leorio confrontam Hisoka é algo bem interessante, mais uma vez mostrando os personagens reconhecendo suas fraquezas perante um poderoso inimigo, tentando resolver aquilo da maneira mais diplomática possível. A situação na caverna com cobras também é um incrível exemplo de construção de personagem, mostrando como Gon pode ser "inteligente" quando se trata de algo que tange o seu mundo, a sua criação como alguém que tem contato com animais e a natureza.
A parte final da prova é mais uma vez Togashi mostrando como ele consegue criar o criativo no simples. O chaveamento é só um toque característico da carreira do mangaká, mas as "lutas" são inventivas, mais uma vez aplicando as limitações dos seus personagens. Gon não consegue ganhar de Hanzo em uma luta, ele não tem técnica, força, treinamento, qualquer capacidade. Então ele não luta, ele ganha de outra forma. Gon ganha usando seus pontos fortes, usando sua força de espírito.

#Mansão Zoldyck e Torre Celestial.

O arco da Mansão Zoldyck é um arco bem simples, mas novamente, aplica lindamente alguns fatores que já haviam sido apresentados e foram aprimorados com o decorrer da obra. Existem algumas alterações em comparação ao mangá, especificamente na cena que o Gon, Kurapika e Leorio abrem os portões da entrada da mansão. É uma mudança considerável, mas entendo a ideia da mudança. No mangá, Leorio consegue, sozinho, empurrar os portões para Gon e Kurapika entrarem. Já no anime, os três fazem isso juntos. Acho a mudança negativa, mesmo entendo a intenção de mostrar amizade e trabalho em equipe.
Acredito que o que eu mais gosto nesse arco é algumas escolhas artísticas da direção e a forma com que o Togashi continua surpreendendo, como ele continua pegando um tema simples e expandindo para algo fora do Shonen. A trilha sonora tem um papel forte nesse arco, o momento em que o cachorro Mike aparece, toda a direção artística que essa cena carrega, realmente muito bem feito e bem pensando. A forma com que a família é tratada, desenvolvida e mostrada as camadas das personalidades dos membros.

Torre Celestial é mais um exemplo de como o anime consegue expandir o simples, expandir o fácil, deixando tudo mais difícil para o autor e interessante para o espectador. O arco também consegue mostrar que o anime sabe fazer lutas, sabe animar de uma forma primorosa. As duas lutas do arco (Hisoka Vs Kastro, Gon Vs Hisoka) conseguem mostrar toda a capacidade do estúdio, sendo que a primeira delas consegue dar importantes ensinamentos sobre o Nen.
Sim, o arco também faz o primoroso trabalho de intrigar, manter o espectador submerso em dúvidas sobre as intensões do Hisoka e sobre tudo o que engloba o Nen.

#Nen.

Vou falar rapidamente sobre meus pensamentos sobre Nen, tangendo, pelo menos um pouco, arcos futuros, mas não falando nada sobre os capítulos do mangá após o anime.
Para mim, o Nen é uma das maiores demonstrações de toda a capacidade do Togashi e da forma séria com que ele trata a própria obra. Para mim, os poderes, dependendo da forma com que são desenvolvidos, podem agregar ou prejudicar uma obra de uma forma realmente significativa. É realmente grande a quantidade de obras "sérias" que decidem não colocar grandes regras nos poderes. Obras que pedem para que o espectador trate sua narrativa de forma séria, que sinta o peso das cenas e das ações. Porém, muito dessa experiência pode ser prejudica pelo sistema de poderes pouco "sério". Um autor prova sua capacidade quando ele mesmo cria regras para limitar o próprio trabalho. Um bom sistema de poder é RECHEADO por regras, recheado por condições que o autor precisa seguir de forma rigorosa, provando a sua capacidade de escrita e mostrando a seriedade com que ele cria os confrontos. Quando um poder é pouco explicado, com poucas regras, o autor pode simplesmente fazer o que bem desejar. O autor ganha o poder de criar qualquer cena e apenas falar "Esse é o poder dele". Não temos poder para questionar as cenas quando não entendemos o que estava acontecendo. Com o Nen, Togashi nos convida a questionar, nos convida a ver que ele respeita as regras do próprio universo e que se um personagem é forte, é por um motivo bom e existe uma forma lógica de derrotá-lo.
#Os ERROS do Nen.
Porém, nem tudo é perfeito quando falamos de Nen em Hunter x Hunter. Para mim, o prolema começa em Greed Island, quando Togashi decidi que não estão em um jogo, que a ilha é real e tudo o que ocorre lá, são consequências de poderes de Nen. Togashi burla as barreiras que ele havia criado, não necessariamente quebras as regas, mas levas as proporções a lugares não muito agradáveis. O Nen foi levado ao absurdo, colocando os criadores do "jogo" como quase deuses. Tinham cartas na ilha que curavam QUALQUER ferimento, algo fora dos limites do aceitável. Mais tarde no anime, no arco das eleições, A MULHER VIRA UMA MOTO! Porém, fico feliz em saber que essa parte idiota do Nen foi deixada de lado. Por exemplo, nos atuais do mangá (não terá spoilers). O Nen ainda se mostra algo de gigantesco poder, de extrema capacidade, mas dentro de um limite da curiosidade, o aceitável que não força a barra, mas interessa o leitor. Não é errado criar um poder "insuperável", o errado é a forma na qual você trata esse aspecto na sua obra.


#Arco de York Shin.

Até esse ponto na obra, Togashi e toda a produção do anime, já provaram serem competentes, que sabem o que estão fazendo. Porém, pelo menos para mim, é em York Shin onde o anime realmente começou a me interessar de forma completa. York Shin é o perfeito exemplo que Hunter x Hunter NÃO é um shonen de lutas, não é um shonen de combates. Hunter x Hunter é um shonen de história, de roteiro, de uma narrativa inteligente e bem pensada. O arco se passa em um leilão, o que já é o suficiente para interessar quando se trata em um anime desse gênero. Porém, nessa panela ainda são colocados mafiosos, um grupo de ladrões assassinos, guarda-costas, nossos protagonistas, etc. Também é nesse arco onde a direção mostra onde pode chegar. A direção desse arco é absurda, cada cena orquestrada de forma magistral, criando clima, aumentando a tensão gradualmente, construindo de forma genial os personagens de diversos escopos.
Os episódios que tratam da aparição do Uvo, sua prisão e a morte pelas mãos de Kurapika são sensacionais. A luta de Uvo na cratera, a forma com que Togashi demonstra o nível de poder dos integrantes da Genei, tudo com uma direção impecável por parte da MadHouse.
Quando alguém começa o debate sobre o Hunter x Hunter antigo e o remake da MadHouse, eu gosto de usar uma das cenas dessa luta como exemplo para dizer que o de 2011 é superior. A cena específica é o momento que as Shadow Beasts são enviadas para matarem Uvo. Mais especificamente no momento que Uvo come pedaço da cabeça de um deles, que se chama Leech/Hiru/Sanguessuga/. Logo depois, Uvo atira pedaço do crânio da cabeça que acabou de comer contra outro membro do grupo, que se chama Rabid Dog/Yamainu/Cão Raivoso. Na primeira adaptação, a cena é péssima. Desde a escolha da trilha sonora, os péssimos enquadramentos, cortes e o péssimo tom aplicado ao momento. Nessa cena, a obra clama por algo muito mais soturno, algo mais levado para um ar tenso, amedrontador. A versão antiga do anime segue para algo simples, uma trilha sonora extremamente inconveniente, com uma bizarra intenção de grandeza. Porém, na versão de 2011, temos uma cena sensacional, completamente focada para o tenso, a antecipação e a surpresa das ações das bestas, assim como é feito no mangá. O momento que Uvo come parte da cabeça de um dos inimigos, a trilha sonora desaparece, a lentidão, a antecipação da cena e toda a tensão envolvendo chega ao seu pico. Para logo depois Uvo cuspir um pedaço do crânio da última vítima contra outro inimigo. Dirigido de forma perfeita, focando nas surpresas dos poderes das bestas, dando total importância para o uso da música, para o bom uso do silêncio. Incrível.

A luta de Uvo contra Kurapika é poética, carregada de emoção, cheia de significado. Quando nós vemos Kurapika cheio de poder, não é simplesmente porque ele treinou muito, porque ele é apelão. Kurapika vendeu a própria vida em nome da vingança, em nome de todo o ódio que cultivou pela Genei Ryodan. Mais uma vez a direção de arte mostra a sua melhor faceta. As cenas em preto a branco, a trilha sonora perfeitamente encaixada, ditando por completo todo o tom, toda a narrativa. Após o fim da luta, uma simples cena de Kurapika enterrando Uvo, mas totalmente carregada de significado. A trilha sonora soturna se mescla com toda a ambientação do arco, o tom noir/soturno que banha todas as camadas desse momento do anime. Perfeito.

Na minha opinião, os episódios 50, 51 e 52 de Hunter x Hunter estão entre os melhores episódios do anime. Novamente preciso citar a SENSACIONAL direção que esses episódios tiveram, a perfeita escalada de tensão, a perfeita demonstração de "fraqueza" do Líder da Genei Ryodan. A forma na qual as facetas dele são mostradas é de arrepiar. A cena com Neon, lendo as previsões da menina e chorando ao pensar em Uvo. A tristeza que emanava da morte de um amigo. Para logo depois comandar a trupe para um sanguinário ataque na cidade de York Shin. Com Mozart ao fundo, encaixado de forma cirúrgica, seguido de uma amedrontadora cena do líder da trupe executando um dos assassinos enviados para o matar. Para logo depois, quando a parede de vidro do prédio é recolhida, ele reger toda aquela sinfonia mortal que havia explodido na cidade. Da tristeza em relação à morte de Uvo, ao caos, a raiva e a contemplação da destruição. Em homenagem à morte do amigo, eles fizeram aquilo que Uvo mais gostaria: caos.

York Shin é o segundo melhor arco de Hunter x Hunter. York Shin é um arco inteligente, complexo, bem escrito, recheado de significado, de personagens bem desenvolvidos e uma trama poderosa.Togashi já havia provado sua capacidade, mas nesse arco, ele decidiu se permitir ir além.

#Arco de Greed Island.

Esse é o arco de menor qualidade de toda a obra, mas nem de perto é um arco ruim. Para mim, o problema de Greed Island é a sua simplicidade comparada ao que nós havíamos acabado de presenciar. Outra coisa que me incomoda nesse arco é justamente algo que já citei: a banalização do Nen. A forma absurda com que ele começou a ser tratado em alguns momentos. Algumas incoerências também prejudicaram o arco, como a incompetência de algumas pessoas dentro do "jogo". Se era tão difícil assim conseguir uma cópia, entrar na ilha, por que haviam pessoas tão idiotas lá dentro?
Obviamente que esse arco não é só defeitos. Em Greed Island, Togashi mostra mais uma vez toda a sua criatividade e todo o infinito potencial do Nen. O treinamento de Gon e Killua é muito bom, toda a forma didática de como o Nen é implementado acrescentou muito a obra.

Penso que é de consenso que a melhor parte do arco é o jogo de queimada.Togashi novamente mostrando como é fascinado por dificuldade na hora de escrever, fascinado por regras que limitam seu trabalho e o fazem ser mais criativo. Nesses episódios é onde podemos ver um gigantesco salto na trilha sonora do anime, algo que se perpetuou pelo resto da obra. A ost "The Emperor's Time", que toca no jogo de queimada, é uma impecável, de tirar o fôlego como essa composição dança entre tantas camadas e regiões. A forma na qual essa música encaixa o SENSACIONAL “leitmotiv” (uma frase musical curta e constantemente recorrente) que percorre grande parte das outras faixas da trilha sonora.



#Formigas Quimera.

O melhor arco já feito para um anime. A melhor sequência de episódios de um anime. Formigas Quimera é uma epopeia, um épico em todos os sentidos que essa palavra pode ser aplicada. Esse arco pega todas as virtudes que a obra construiu em seu percurso e amplifica elas ao máximo.
#Formigas Quimera é dividido em três partes:
𝟭.
A introdução, exploração e descobrimento dos inimigos.
𝟮.
A morte de Kite, treinamento e preparação para a batalha.
𝟯.
A invasão ao palácio das formigas quimeras.
A primeira parte do arco faz um ótimo trabalho de pavimentação. Estabelece bem os inimigos, demonstra logo nos primeiros episódios a maturidade do arco. O assassinato das crianças, a forma na qual toda a tensão é construída gradativamente é invejável. É sensacional narrativa de Togashi, mesclando o impecável trabalho de produção do melhor estúdio de animações japonesas. Essa primeira parte do arco é regada de emoções, uma montanha-russa muito bem pensada. O início é uma surpresa, a novidade das formigas, o perigo eminente que se aproximava. Porém, com o tempo, vemos Gon, Killua e Kite tendo certa facilidade em lidar com algumas formigas, vemos Kite derrotando várias delas com um só ataque. Mas no final, voltamos a realidade dos fatos, Kite é morto rapidamente e os nossos protagonistas não puderam fazer nada.

Gostaria de pontuar duas coisas nessa primeira parte do arco. Primeiro, gostaria de dissertar sobre o episódio 80, que, novamente, é um perfeito exemplo de como esse anime tem uma sensacional direção. A história de Gyro, toda a escolha das paletas de cores, a narração, a profundidade da história. Para mim, a cereja no bolo desse flashback se chama "Kingdom Of Predators". Essa ost é, muito provavelmente, a melhor ost de Hunter x Hunter. Nenhuma outra música em outro anime consegue passar tão bem um sentimento, tão bem a magnitude de uma obra, de um arco regado de mensagens poderosas, de sentimentos.

O segundo momento que eu gostaria de pontuar nessa primeira parte é a morte da Ponzu. Novamente eu volto aqui falando sobre a direção desse anime. A cena que Ponzu é assassinada a tiros por um animal, uma formiga que diz que "caçar é tão divertido". A forma inenarrável que outra SENSACIONAL ost é encaixada (ost "Who's the bomber"). Nesses momentos específicos, é notável o que nos aguarda.

A segunda parte do arco é perfeita quando se trata de expectativas. Constrói um constante clima de tensão, um constante clima de urgência que perdura até o seu clímax. Vemos Gon e Killua passando por grandes conflitos sentimentais em relação à amizade, esperança, culpa, etc. Toda essa parte é recheada de sentimento, a cena onde Killua diz que Gon é "luz". A cena onde Killua confronta seus medos, confronta suas inseguranças e remove a agulha na testa. O encontro de Gon com Palm, enquanto é stalkeado por Killua. Inclusive, vale mencionar a forma com o que o “leitmotiv” é utilizado em todo esse momento do encontro é de tirar o fôlego.

Algo que Hunter x Hunter sempre soube fazer é desenvolver personagens. Nesse momento não é diferente. Todos os personagens do grupo da invasão tem seu desenvolvimento, tem seu momento de tela e cada um é mais legal que outro (tirando a Palm...). Os confrontos dessa parte do arco também são sensacionais: Morel contra Cheeto, Morel contra Leol, Gon vs knuckle, Killua vs Shoot, Killua vs Rammot, etc. A forma na qual Meruem tenta se encontrar em algo, tenta ser o melhor em tudo, mas acaba empacando em um jogo contra uma menina com 1% da sua força.

Em geral, a segunda parte do arco faz o perfeito trabalho de construir toda a tensão, toda a expectativa para o que estar por vir no decorredor, na invasão.

A invasão de Hunter x Hunter foi completamente o oposto do que eu esperava. Talvez eu tenha sido ingênuo nos meus 12 anos pensando que seriam vários episódios de pura porrada e destruição. Se eu fosse falar de toda a invasão, essa análise ficaria maior do que já está. Por isso, vou dividir essa parte da análise em pontos de interesse, pontos específicos da invasão. Alguns deles vou citar por episódio, outros ou citar por acontecimentos.

Essa é oficialmente a melhor entrada que um humano poderia pensar em criar. A DIREÇÃO desse momento é excepcional! O dragão sobrevoando o palácio, a contagem regressiva feita por Morel, o momento que outra maravilhosa ost entra para levantar os pelos de todo o corpo (ost "Legend Of The Martial Artist"). Netero caindo do céu, Pitou decolando para confrontá-lo, Pouf presando 100% pela proteção do rei. Quando Netero confronta Pitou, o flashbak começa... é inexplicável como tudo isso é feito de uma forma tão perfeita, tão bem dirigida. O peso que o flashback de Netero tem, a importância da gratidão e todo o treinamento incessante que ele passou. Sem palavras.


Quero dedicar esse trecho para falar sobre a questão do narrador nessa etapa do arco. Eu, nem de perto, acho a presença dele negativa. Um dia tive uma discussão com uma pessoa que alegava que a presença dele deixava a obra expositiva, que nos tirava do campo da imaginação e jogava tudo no óbvio. Eu, que sempre fui um grande crítico da exposição barata, falo que discordo em 100% dessa afirmação. O narrador não é expositivo, ele faz parte integral da construção dos personagens e da emoção que o arco passa. Ele não explica, ele conta, ele narra. O narrador faz o perfeito trabalho de ditar o tom das cenas, de acrescentar camada a cada segundo. Os poucos segundos que se passavam em Dragon Ball em infinitas horas, em Hunter x Hunter se tornaram em infinitas horas da mais pura tensão e construção de personagem.

O episódio 116 é o início daquilo que seria a maior construção de personagem do anime. O momento que Gon finalmente se encontra com Pitou e confronta a formiga. O momento que ele fala de toda a sua raiva, o momento onde ele mostra que não consegue viver em um mundo onde a assassina de Kite está tentando salvar uma menina inocente. Killua se retrai, não sabe o que fazer, se isolou em uma zona de contemplação do caos. E mais uma vez, a direção se mostra presente. A dublagem do Gon é irretocável. Sensacional.


Lhes apresento a melhor luta já feito para um anime. Às vezes, eu chego a pensar que o episódio 126 é o melhor de Hunter x Hunter. Eu ainda não sei se ele é o melhor em geral, o melhor em questão de significado ou narrativa, mas digo com toda certeza, que é o melhor em questão de direção. O episódio 126 de Hunter x Hunter é um dos maiores feitos de direção da humanidade. Esse episódio é a perfeição em animação, música, diálogos, significado, intenção, tudo. O momento que aparece a pintura japonesa na tela, o momento que o “leitmotiv” entra na cena, é de arrepiar, de emocionar.
Para mim, a trilha sonora de Hunter x Hunter é a melhor já feita para um anime, ela vai além de qualquer outra. Não é apenas música, é uma orquestra, são composições que contam algo mais profundo do que roteiros inteiros de outros animes. As analogias com gungi, com agulhas, as composições visuais mostrando toda a grandiosidade do momento. Não é uma luta, é poesia, é uma aula de narrativa, de construção e desconstrução de personagem. É um profundo estudo da mágica que é dirigir uma cena, de compor cenário e encaixar trilha sonora. Após o golpe final de Netero, o discurso de Meruem seguido pelas palavras finais de Netero. A escolha visual, os tons roxos e toda a escuridão que envolvia o nosso "herói". Netero tinha uma bomba que seria ativada quando o coração parasse. Quando o coração dele parasse, o maior símbolo de ódio seria ativado, o maior símbolo da falta de amor iria explodir em formato de uma rosa, de um presente de mau gosto. Eu não consigo controlar a emoção toda vez que assisto essa luta, é uma catarse. Porém, a luta não é apenas o trabalho excepcional da MadHouse, porque no mangá, é 99% igual ao anime. Todas as decisões visuais, todas as metáforas e intenções foram criadas por Togashi, pela mente genial de um autor cheio de talento.


O episódio 131 é chover no molhado. Poderia ficar aqui décadas dedicando elogios ao confronto de Gon e Pitou. Porém, quero focar na transformação de Gon. Quando o Goku se transformava em Super Saiyajin, é algo mágico, algo lindo, algo feito para derrotar o grande vilão e proteger os amigos. Porém, em Hunter x Hunter, Togashi quebra o clichê novamente. Gon vira um monstro, algo completamente cego por vingança, completamente cego pelo ódio que ele mesmo cultivou, não um demônio raposa de nove caudas. Gon não luta contra Pitou, ele assassina ela, executa ela da mais cruel maneira que ele conseguisse. Todo o final do episódio, o momento que Killua chega e fala com Gon, que diz que está feliz por estar parecendo com Kite. A cada episódio, formigas quimeras continuava mostrando os motivos de ser o melhor arco de anime já feito.


Episódio 134, 135 e 136 concluem perfeitamente tudo o que se construiu durante os episódios do arco. O cruel e poderoso início do 134, mostrando toda a crueldade dos humanos, como nós somos infinitamente piores do que qualquer ser vivo que exista. Mais uma vez, a trilha sonora sendo encaixada de forma sensacional, toda a sequência relatando as crueldades dos humanos, finalizando com a simples notícia de que todas as formigas iriam morrer por conta de um simples veneno. Togashi volta a surpreender, volta a mostrar como ele pode simplesmente subverter tudo e acabar de uma forma totalmente diferente daquilo que pensamos. Ainda no episódio 134, um momento que sempre me emociona é o confronto de Wellfin e Meruem. O momento que Wellfin se vê diante da morte, que se vê em uma situação onde uma palavra pode mudar tudo e acaba falando "Komugi". Mias uma vez a direção poderosa entra, a cena linda de Meruem lembrando dos momentos com Komugi, sem palavras. O 135 também é chover no molhado. A beleza desse episódio, a delicadeza e a finalização da construção de Meruem. Gosto da forma que o relacionamento dele com a Komugi foi tratado. Não era um amor carnal, não era algo sexual, era um amor puro entre pessoas que se sentiam felizes quando estavam próximas, quando estavam interagindo. A Komugi ser cega faz parte da grande mensagem do arco: Meruem poderia ser uma formiga, mas ele terminou mais humano que grande parte dos personagens principais. Komugi não sabia que Meruem era uma formiga, porque essa informação não iria mudar quem Meruem era por dentro. O Episódio 136 é a conclusão do arco, algo extremamente sentimental, fechando o ciclo de Reina. Um episódio muito bonito, extremamente emocionante.




Algo que sempre chama a minha atenção quando se trata de formigas quimeras, é que Gon NUNCA falou com Meruem. O protagonista da obra nunca falou com o maior vilão da Obra e sequer tinha interesse em fazer isso.

#Arco da Eleição.

Claro que é um trabalho de extrema dificuldade fazer um arco que supere o arco anterior. Porém, Togashi não tenta fazer isso. Ele tenta ir por outro lado, e ainda assim, consegue fazer um arco carregado de cenas incríveis, tocantes e que entram para o hall das melhores do anime. O arco da eleição é um arco cheio de momentos inteligentes e mais uma vez Togashi mostra que consegue desenvolver um roteiro interessante em qualquer cenário.
O episódio final é uma homenagem a toda a jornada de Gon. Uma "finalização" dela. Sim, todos querem o retorno do anime, algo que eu penso que não acontecesse antes de 2025. Porém, podemos dizer que a história se finalizou no episódio 148, que Gon concluiu o objetivo que sempre teve em mente. A cena final é de aquecer o coração. A abertura tocando, os personagens aparecendo e a frase de Ging: "Você deve aproveitar os pequenos desvios ao máximo. Porque é onde você vai encontrar as coisas mais importantes do que as que você quer".


Resumindo: Hunter x Hunter 2011 é o melhor anime que eu já tive o prazer de assistir mais de 18 vezes. O estúdio MadHouse fez um trabalho perfeito, impecável em todos os sentidos. Yoshihisa Hirano compôs a melhor trilha sonora da história dos animes. Um anime dirigido com carinho, com perfeição em 99% dos casos. Com pouquíssimos problemas, Hunter x Hunter se mantém absoluto no topo dos meus favoritos quando se trata de ANIMES.

Openings e Endings
A opening se repetir é uma óbvia referência Yu Yu Hakusho, mas digo que o resultado é inferior ao primeiro anime de um mangá do Togashi. Em questão de animação da opening, as de Hunter são superiores, mas a música de Yu Yu Hakusho é sensacional.
As endings são sensacionais, todas. Todas elas mesclam com perfeição as situações dos animes em que tocam. Minha endings preferidas são as duas últimas.

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