

Uma das melhores qualidades em Maiko-san Chi no Makanai-san é como todo o cotidiano das personagens (tanto da Kiyo quanto das outras Maikos) é sempre colocado em cena como algo ritualizado, de extrema delicadeza contemplação. É um anime que transforma e evidencia os atos humanos mais banais (para aquela realidade do Japão) e simples em momentos de grande valor.
Até os conflitos apresentados no anime são muitas vezes pequenos e até internalizados pela forma contida como o anime expressa os sentimentos das personagens.
A personagem da Sumire, que é a de quem ficamos mais próximos dentre todas às outras Maikos, é essa garota que se dedica de forma até obsessiva por esse caminho. A alimentação, o modo de se vestir e agir em público são cheios de regras e limitações. É construído muito bem uma dualidade entre os seus desejos e dificuldades humanos e esse tipo de ideal à ser alcançado.
Ainda que seja um anime que mostra com um olhar bem árduo, de grandes responsabilidades e até algumas limitações que as personagens precisam ter para chegar nesse ideal de "perfeição" e refinamento, não me parece ser um tipo de crítica à esse mundo. Muito pelo contrário. Todos os gestos, vestimentas, maquiagem e penteados das personagens são mostrados com um olhar de fascínio. A visão do diretor Youhei Suzuki respeita esse mundo e modo de vida e as dificuldades que surgem dele.
Além de ter uma função de equilíbrio no modo de vida das outras personagens dentro da casa, ela não deixa de fazer parte dessa visão que busca enaltecer os atos mais simples.
Usando como exemplo uma cena que acontece no quinto capitulo (que é uma das mais geniais do anime), e como simples escolhas visuais mínimas tem impactos grandiosos. A personagem da Kiyo está lavando a louça após preparar panqueca para às Maikos da casa. É uma cena com poucos barulhos, e só possível ouvir o som dela esfregando a esponja no prato. Ela para esse ato por um momento, e durante o silencio, a manga da sua camisa escorre sobre o seu braço levemente, o anime muda para um plano do rosto dela de perfil, e após isso ela tem um flashback da sua infância. É uma cena em que poucas coisas acontecem, mas são escolhas bem objetivas, e que tem um impacto muito grande.
No final do terceiro capitulo, quando a Kiyo está conversando na calçada com o Onii-san, ela encontra do outro lado da rua a personagem da Sumire andando sozinha. O plano foca no seu rosto e ela parece estar meio desnorteada. Ela responde ao chamado da amiga com uma reverência meio assustada, e depois acena fazendo um sinal de despedida com a mão e vai embora. É simples, mas já demonstra uma certa dificuldade e excesso de esforço da personagem em seu novo modo de vida. A cena em que a Sumire observa Kiyo tirando a neve também demostra esse caráter mais contido. Ela observa atentamente a personagem limpando a neve, tem um breve flashback delas quando crianças fazendo a mesma atividade. Essa cena mostra possivelmente a admiração que a Sumire tem pela Kiyo. É um momento, que além de contemplativo e simples, passa um sentimento que não se expressa de forma tão óbvia.
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