"If you're not remembered, then you never existed."

Essa visão que o mundo da década de 90 tinha do avanço tecnológico é algo curioso, principalmente levando em consideração o quão pouco era difundida a distribuição dessa tecnologia, e como que existia um certo receio do que seria essa nova dinâmica que se construia para o novo milênio, a dinâmica do humano com a máquina. Saber do contexto japonês quanto essa discussão é ainda mais interessante, pois de todos os lugares lá era o canto com mais representações desse avanço tecnológico no país, em sua grande maioria sendo retratado como essa relação um tanto quanto nociva a o que faz alguém entender do que é a realidade.
"Serial Experiments Lain" veio no dia certo e na hora certa, onde sendo lançado em 1998, praticamente na virada do milênio, conseguiu tratar sobre seus temas quanto ao avanço da tecnologia dentro da humanidade, e principalmente na relação do que seria a do humano com a máquina, e as nossas percepções do que é a realidade sendo testada com o surgimento de outras realidades vindas de telas. Tomando um aspecto um tanto mais pro lado zeitgerst da coisa, "Serial Experiments Lain" utiliza todas essas temáticas envoltas a tecnologia, e todo esse receio criado em cima desse avanço, para poder discutir filosofias do que é ser você, o que faz nós mesmos, e o que é a realidade o qual vivemos. 13 episódios são apresentados, e cada mais fundo que somos apresentados, mais entramos nesses experimentos filosóficos e até sociológicos que o anime quer tratar.
Em termos técnicos, "Serial Experiments Lain" é relativamente comum, com coisas que não chamem muito a atenção a primeira vista, e isso claramente é um artifício proposital dentro do anime pra reafirmar sua própria narrativa. O que é chamado de "mundo real" é ordinário, sem muitas coisas que se destaquem, cheios de repetições, padrões e coisas não muito chamativas para os olhos. Isso cria um contraste bem pensado para o que é apresentado como "WIRED", no anime, que tal qual a nossa internet as coisas não tem limitações, regras ou quaisquer tipo de trava, criando esse sentimento mais lúdico e artificial para criar essa dualidade dentro da história, onde claramente a falta de limitações que a WIRED oferece é tentadora, tudo lá é mais lindo e flexível.
A direção retrata bem esses dois lados, criando uma dualidade que consegue manter bem o seu pacing, onde por muitas vezes ao decorrer do episódio, quando o senso do que é a realidade é quebrado aos poucos, consegue criar esse tom um pouco mais surreal em muitos momentos, seja nos visuais um tanto quanto experimentais, dividindo algumas vezes entre cenas estáticas, textos em fundos psicodélicas ou uma mistura de gravações reais com animação, ou principalmente em seus sons desconfortáveis para criar um ambiente estranho, que consegue realçar esses momentos surreais dentro do anime. Essa questão disparica também é feito com o character design dos personagens, onde que com o trabalho de Takahiro Kishida se cria um sentimento estranho quanto a protagonista e os arredores dela, Lain Iwakura que parece tão diferente naquele cenário, onde perto de outros personagens parece algo diferente, até mesmo fora daquela realidade por si só.
"Serial Experiments Lain" entra fundo quanto a seus personagens, usando temas existencialistas sobre o que é ser humano para cada um deles, e principalmente em específico a protagonista Lain. O conceito de Lain Iwakura para uma história igual a essa é no mínimo incrível, seja dentro dos conceitos filosóficos macro de um ser humano, ou do conceito de uma adolescente sem propósito na realidade encontrando um dentro da internet. Independente das duas visões, ambas se encontram na dissociação que todos nós temos do que é estar na realidade, e principalmente sobre nos encontrarmos nessa realidade. A escolha de uma adolescente pra uma história igual a essa serve perfeitamente a narrativa, o qual além de comentar da melhor maneira as complexidades que é a adolescência no geral, também consegue retratar muito bem a atemporalidade que "Serial Experiments Lain" tem, retratando a relação de uma geração com o escapismo dentro da internet, e como esse escapismo consegue borrar a visão de muitos sobre qual realidade se viver. Lain em todos os aspectos é a retratação disso, onde de uma maneira extrema transforma tudo ao redor dela em uma extensão dessa necessidade de estar sempre conectada, com seu quarto sendo a principal figura disso, onde quando rodeado de cabos e tubos com líquidos estranhos se torna praticamente uma extensão de seu corpo, onde nada mais ela vira do que uma parte de sua própria máquina.
"Serial Experiments Lain" é de um fato um experimento; um experimento atemporal sobre o que é ser humano, e o que faz ser um humano. Seja nas questões quanto a relação do humano com máquina, ou principalmente nos aspectos mais filosóficos apresentados sobre a nossa percepção do que de fato existe, o que é memória e também sobre como se torna um humano. A relação do anime com os avanços tecnológicos é no mínimo bizarramente surpreendente, principalmente levando em consideração o ano e o contexto o qual foi lançado, mas o que de fato chama a atenção e faz criar reflexões quanto a "Serial Experiments Lain", é sobre como até mesmo aquilo que podemos considerar como não-real pode ser atribuído algum significado, mesmo que seja o menor possível, mas pelo menos será o suficiente pra podermos lembrar de como funciona a nossa relação com nós mesmos, os outros e principalmente essa ideia que temos do que é a realidade. "Present day. Present now" não é jargão, é atemporalidade!
Nt: Naturalmente isso aqui se tornou um dos meus animes favoritos, e isso cria uma situação engraçada onde dois dos meus animes favoritos são sobre adolescentes vivendo a complexidade que é significar a própria vida, humanidade e até a existência como um todo enquanto vive em um Japão noventista com uma tecnologia a frente de seu tempo, no meio de tantos problemas familiares e a necessidade urgente de tampar tudo isso com vícios. NGL e SEL, minha duplinha de animes favorita!
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