
Monster
a review by thismaxine

a review by thismaxine
Em ocasiões nas quais nos deparamos com um trabalho profundamente tocante mas imediatamente poderoso, parece terrível a decisão de desdobrá-lo parte a parte. Em alguma medida, buscar a composição da mágica por trás dos afetos de um dado trabalho artístico também é um instinto de destruição próprio da criatividade. Por isso fazemos com o mistério aquilo que ora nos recompensa com uma descoberta fascinante, ora transforma alquimia em química, reverte deuses em esferas celestes e com isso desencanta até que possamos achar outro enigma no seio do mundo.
Qual a mágica por trás de um ato de humanidade? Por que então enxergamos uma mística parecida no desumano, ou naquilo que parece obscurecer a identificação com o outro? Por que motivo parece nos levar sempre a esse entrincheiramento ao qual recorremos quando usamos a palavra monstro? Pretendo revisitar uma estória cheia desses encantamentos, na qual a caridade é o nosso ponto de partida para conhecer dilemas verdadeiramente difíceis para os valores supostamente fundantes do nosso entendimento do Bem e Mal.
O ponto de vista principal é o de Kenzou Tenma, médico dedicado, talentoso e praticamente livre de falhas morais. Seu primeiro dilema na narrativa aparece ao descobrir que havia tratado, a mando de seus superiores, um paciente de grande prestígio para o hospital ao invés de receber um caso mais urgente, no qual o paciente era um cidadão qualquer. A decisão certamente era atravessada pelos interesses pessoais dos dirigentes daquela instituição, portanto passamos a desconfiar que há um compromisso menor com a vida do que com a reputação do hospital. O trabalho de Tenma foi elogiado. No entanto, a desconfiança para com a conduta dos diretores tornou-se um incômodo muito maior, em especial por comentários terríveis de sua noiva Eva Heinemann (esta merece um texto dedicado). A situação ocorreria mais uma vez quando um garoto órfão em estado crítico é recebido para operação que poderia salvar sua vida e, ao mesmo tempo, um paciente mais quisto pelos superintendentes precisa de cuidados. No entanto, sua convicção naquele instante de que as vidas possuem igual valor leva Kenzou a contrariar ordens e esforçar-se por salvar a vida do pequeno Johan.
A sinopse, por ocultar as circunstâncias anteriores, permite em primeiro lugar que nos encantemos com a pequena trama na qual o protagonista dá o exemplo do que é optar pelo bem maior e valorizar a vida, para logo depois revelar os contornos trágicos da situação envolvendo o casal Liebert e os irmãos gêmeos adotados. O fator responsável por abalar as crenças de Tenma é, em primeiro lugar, cogitar um possível erro na sua operação, o qual teria tornado aquele garoto um assassino incapaz de sentir remorso. No entanto, conforme nos aprofundamos em sua vida, a hipótese é provada falsa e então múltiplas revelações afirmam e negam, de forma subsequente e intercalada, o mal 'de nascença', como se de fato alguns seres humanos pudessem nascer naturalmente ruins.
Uma personagem responsável por reforçar e contrariar as convicções de Tenma, incialmente, é sua irmã gêmea Anna, quem teria vindo, até onde sabíamos, do mesmo lugar, portanto alguns poderiam supor: não deve ter sido criada de outra maneira, ela é naturalmente mais bondosa. Entretanto, descobrimos a existência de dois orfanatos distintos nos quais os irmãos tiveram tratamentos diferentes. Isso basta? Voltemos mais um pouco e descobriremos que Johan já era capaz de matar antes de entrar no orfanato Kinderheim 511. Então não foram os experimentos de lavagem cerebral que o fizeram assassino mas algo anterior. Quanto mais nos aproximamos de seus primeiros anos de vida mais aparecem evidências para quem quiser acreditar na maldade inata ou nutrida, e mesmo assim existe um mistério a ser solucionado.
O anime e mangá deixam algumas informações ocultas propositalmente, tal como a vida de alguns dos antepassados de Johan, para que não comecemos a pensar num culpado para o culpado e assim ad infinitum. Para explicá-lo precisamos entender o plano de Franz Bonaparta com o programa de eugenia da Checoslováquia e como isso o afetou profundamente.
Começando pela vida pessoal de Bonaparta: Antes de se formar psiquiatra e neurocirurgião, o livro Another Monster conta um pouco mais sobre a juventude do homem. Quando chegou ao início da idade adulta, era apaixonado por uma jovem que morava na cidade. No entanto, seu pai decidiu relacionar-se com ela. A mulher ficou grávida. No entanto, saiu e casou-se com um alemão nascido na República Tcheca, na cidade vizinha de Liberec, e mais tarde deu à luz um filho (Meio-irmão de Franz, pai de Johan).
Em 1950, Bonaparta deixou sua cidade natal para nunca mais voltar. A partir daí, ele frequentou a escola e formou-se em psicologia, psiquiatria e neurocirurgia (pois é), e conheceu seu primeiro editor de livros. Durante esse tempo, desenvolveu um interesse por uma atriz; a qual se transformava no palco de forma tão dramática que parecia possuída por multiplas personalidades. Ele a removeu temporariamente de sua posição e estudou suas ondas cerebrais como parte de um projeto de pesquisa do governo. Os dois acabaram se casando e em 1962 ela deu à luz um filho. Por razões desconhecidas, o casal foi separado e ele ficou ausente da vida de seu filho.
Bonaparta dedicou-se a escrever livros para crianças com contos de fadas nos quais as lições de moral eram distorcidas de alguma maneira. Com isso, na década de 1960, como parte da Polícia Secreta da Checoslováquia, Bonaparta começou a realizar experimentos de reprogramação de personalidade e seminários de leitura na Mansão das Rosas.
No anime sabemos apenas que ele se apaixonou pela mãe dos gêmeos e, como o procedimento do programa de eugenia ordenava, esperou ela se apaixonar por um soldado — quem, por acaso ou não, era o meio-irmão de Bonaparta — para então matá-lo e confinar a mulher ainda em período de gestação. Věra Černá, a mãe de Johan e Nina, nutriu um profundo ódio por Bonaparta e os experimentos aos quais estava submetida, inclusive por lembrar da morte de seu marido pelas ordens do próprio Franz, quem continuamente realizava entrevistas até o final da gestação e depois a manteve sob vigilância. Věra jogou uma maldição ao dizer que, mesmo que ela morresse, as crianças dentro dela teriam vingança.
Após o nascimento dos gêmeos, a mãe manteve-os usando os mesmos vestidos para que os vizinhos e os agentes do governo pensassem que a mulher tinha uma filha única. Caso o disfarce fosse bom o suficiente, os agentes não reconheceriam a família e não levariam ambos para algum experimento futuro. Contudo, a casa no prédio dos três sapos estava sendo vigiada e eventualmente Franz Bonaparta aparece para levar a criança supostamente perfeita a conhecer livros infantis feitos especificamente para ela, e um evento na Mansão das Rosas.
Este é o momento apontado como origem de todas as motivações de Johan no final do anime, pois dois grandes traumas o atormentariam durante toda a vida a partir daquele ponto. O mais crítico foi ver sua mãe escolher entre uma das crianças, hesitar ao mandar uma delas quando a polícia secreta veio buscá-lo. Johan nunca entendeu se sua mãe havia hesitado ao escolher um dos filhos por saber que era ele ou por confundir sua irmã. Uma espécie de defesa psicológica reprimiu aquela memória e fez ele acreditar que ele tinha sido mandado para a mansão no lugar de Nina, quando na verdade foi deixado em casa para ler o livro que Bonaparta escreveu para reprogramar sua personalidade. O mais crucial implantado aqui é que sua vida vale menos que a vida de sua irmã, pois ela já era chamada Anna enquanto Věra fingia ter apenas uma única criança. O pequeno pegava o nome da irmã emprestado e nunca teve um próprio para sua própria segurança.

Nina foi à Mansão e vivenciou o experimento de isolamento por tempo indefinido numa sala escura. Após um número maior de refeições ocasionais do que ela sabia contar, a menina foi retirada. Depois, passou entre muitos agentes perguntando se aquela era a criança perfeita que guiaria a nação no futuro. Bonaparta pede, arrependido, que ela volte, para que ambos jamais se tornem monstros. Cadáveres de quarenta e dois homens envenenados. Uma rosa corta seu braço, voa um pouco do sangue. Encontra o prédio dos três sapos. Abre a porta.
- Okaeri [おかえり]Johan pede que Nina conte-o tudo sobre a mansão, escuta várias e várias vezes persistindo em acreditar que os relatos de sua irmã eram memórias dele. A menina então foi capaz de esquecer, apesar de conviver com uma amnésia a partir daquele momento, enquanto o menino permanece acreditando que é o monstro do livro, que caminhou entre as pessoas mortas e foi a última sobrando com um monstro dentro de si. Johan, é um nome maravilhoso.

Desde então, o garoto matou todos os pais adotivos com quem os gêmeos ficaram até atravessar a fronteira com sua irmã sem rumo e ser recolhido à beira da morte pelo general Helmut Wolf. Ele manda os gêmeos para orfanatos distintos e nomeia o menino com o nome que está no livro, consolidando de uma vez sua fantasia distorcida.
Kinderheim 511 altera um pouco as memórias de Johan, então recolhem um relato importante:
PÁGINA DO MANGÁDepois disso existem mais ocasiões nas quais ele demonstra uma enorme consideração por Nina. Uma vez os gêmeos aparecem brincando de adivinhar em qual mão está a noz e Johan coloca uma em ambas, com duas respostas certas. Em alguma medida ele está opondo o trauma que teve, mas está imitando a atitude de sua mãe quando ela tentou fazer os guardas acreditarem que eram duas meninas. Apesar disso, é plausível supor que uma elevação da irmã o separou do senso de "eu", privando-o inclusive das emoções mais necessárias para almejar o bem e reconhecer-se no outro.

Johan então tentou proteger Nina, assim que os Lieberts receberam Franz Bonaparta para uma visita, o menino fingiu estar dormindo e na mesma noite matou os pais adotivos. Naquele momento, ele pensou que já representava uma ameaça para a irmã, então aponta uma arma para sua própria cabeça e pede a ela para atirar.
Assim chegamos onde o anime começa. O garoto sobreviveu à cirurgia e percebe que sua irmã agora está assustada apenas de vê-lo vivo. Daí em diante ele obtém uma espécie de confirmação de que a própria vida é indesejada, assim como o trauma com sua mãe o fez acreditar.

Mais à frente, Johann aparece chegando em sua idade adulta. Após um encontro chocante podemos vê-lo triste e com um desprezo pela própria vida. Curiosamente, o dilema inicial do Dr. Tenma incutiu outra ideia ambivalente em seu sistema de crenças.
Como esse pensamento não contém, em si mesmo, o valor positivo ou negativo, o desejável ou o desprezível, em nada contradiz as opiniões do garoto, quem desprezou a própria vida até ali e permaneceu desprezando. Agora, ele passa a entender através de uma lente moral que ninguém é diferente dele apesar das diferentes circunstâncias. É um excelente gancho para o autor dedicar os 'plot twists' do mangá a uma discussão sobre natureza humana. Se todos os seres humanos possuem uma mesma natureza, e podemos então julgá-la digna ou indigna, basta encontrar algo em comum a todos sustentando a opinião negativa pelo ser humano; até mesmo a extinção poderia encontrar validação num raciocínio formulada com suposições simples como essas.
Para retomar: O espectador (ou leitor) é levado a acreditar na monstruosidade natural e particular ao garoto Johan, pois sua irmã gêmea não cometeu nada de hediondo. Depois, descobrimos que ambos eram egressos de orfanatos radicalmente distintos, e pouco tempo depois sabemos da boca de um outro personagem: o menino havia chegado ao orfanato já sem escrúpulos. Depois, descobrimos sobre a mansão das rosas e, para tornar tudo ainda mais confuso, revela-se a troca de memórias entre Johan e Nina. Então, no mesmo capítulo/episódio, a maldição jogada por Věra é contada e com isso já não é mais possível saber se a maldade era inata ou foi nutrida desde antes do nascimento.
Um personagem colocado como personificação da busca interessada em uma conclusão específica é o inspetor Lunge. Ele é caricato por quão obsessivo ficou em sua procura por um culpado em particular. É outra tangente da narrativa bastante interessante. Você pode relacioná-lo a uma tentativa de colocar toda a culpa na pobre da mãe do Johan ou no Bonaparta. Isso, francamente, faz mais sentido apesar de não confirmar tudo, tendo em vista uma única boa ação dele que tirou a Nina dos experimentos do governo e terminou salvando os dois no penúltimo episódio.
Conforme tentei pontuar, não há tanto caminho para concluir algo como a misantropia inata do bebê Johan, mas é muito provável que os eventos dos primeiros dois episódios ou 4 capítulos sejam a consumação do sentimento anti-humanidade germinado de uma série de causas e condições específicas.
Um misantropo é alguém que tem tais opiniões ou sentimentos: A palavra tem sua origem nas palavras gregas μῖσος (mīsos, ódio) e ἄνθρωπος (ānthropos, homem, humano). A misantropia envolve uma atitude avaliativa negativa em relação à humanidade que se baseia em um julgamento negativo sobre os defeitos da humanidade. Estes defeitos são vistos como ubíquos, ou seja, possuídos por quase todos em um grau sério e não apenas por alguns casos extremos. Eles também são considerados entrincheirados, o que significa que não há maneira ou não é fácil retificá-los
Como Tenma é um filantropo, sua opinião é favorável à vida humana em todas as situações, como seria a formação de todo médico seguindo o juramento hipocrático, ou seja, o polo positivo da mesma afirmação moral confronta o plano de suicídio e apagamento da memória de Johann e todos esses quem estiveram envolvidos em sua história. Da sua própria maneira, o jovem a quem perseguimos junto de Tenma provoca o pior tipo de comportamento em diversos outros personagens, algumas vezes, para validar o possível desprezo à vida humana, e por que não à vida em geral? Na verdade, o mais interessante sobre colocar em questão o nosso instinto de prezar pela sobrevivência é constatar o mesmo comportamento em coisas não humanas. De alguma forma, colocar o gênero humano como julgador acima das outras criaturas também é um caminho para legitimar a misantropia.
O "jogo" apresentado no episódio 33 e capítulos 63-64 é emblemático para pensar na visão de mundo de Johan como também comenta a natureza humana, discutida ao longo de outros episódios. Johann sempre andar "em cima do muro" enquanto brinca com o destino não é só como ele se vê enquanto escolhido, é uma analogia com a própria separação entre bem e mal, no sentido mais Maniqueu, misantrópico, ou também a separação entre digno e indigno de existir, como também um comentário sobre uma hipótese argumentativa em defesa da 'bondade inerente ao humano' usando a proposição de que qualquer um, diante de uma criança caminhando sobre uma cerca, tentaria salvá-la de cair.
É interessante extrapolar essas reflexões para compreender a partir de qual princípios julgamos as possibilidades de ação, as quais permitimos desejar ou não. No final das contas, Johan também é um moralista, portanto querer ou não a morte de certas pessoas vem de uma justificação ou restrição justificada dos nossos desejos e medos. Mesmo o personagem principal, quando esteve bêbado após ser afastado de seu cargo por uma decisão a qual julgou ser correta, desejou a morte dos homens encarregados por mudar a ordem de prioridade de seus pacientes. (episódio 2/capítulo 3)

Por atitudes emotivas assim, até mesmo nós, o público, nos permitimos perdoar Grimmer pelos assassinatos que cometeu e temos tanta dificuldade em entender Johan. Afinal, Wolfgang Grimmer é um personagem muito relevante tematicamente em diversos sentidos. Ele parece uma excelente representação para o reconhecimento da impraticabilidade de certas condutas morais. Por isso um dilema que aparece em Monster o tempo todo se parece com: Como assim matar é ilícito se você precisa matar para impedir que o outro mate também?
É comum pensar que o pacifismo radical prega uma indiferença absoluta. Contudo, defende-se que alguém impeça múltiplos assassinatos cometendo um só. Isso não se deve a um valor distinto entre as vidas humanas, como propõe Eva, mas a uma ponderação que remete ao ponto de vista absoluto da vida humana na terra. Relativizar o valor da vida seria defender uma espécie de eutanásia para as pessoas com vidas menos valiosa, muito semelhante a ponderação de um suicida, por exemplo.
O mais fascinante da jornada de Johan é como ele alterna entre uma relativização da vida humana e um julgamento absoluto sem perceber que está fazendo isso. Assim como Wolfgang Grimmer, os efeitos do orfanato Kinderheim 511, inspirados nos propósitos distorcidos de Bonaparta na mansão das rosas, buscavam criar seres humanos mais perfeitos através da completa supressão do senso de si em cada um.

Assim como Grimmer dividiu a própria identidade no homem fictício e no Magnífico Steiner, os planos de Johan alternam entre ele próprio acreditando ser uma catástrofe para o resto da raça humana relativamente — quando aponta o dedo para a testa, semelhante ao símbolo Hindu — e quando está afirmando sua perspectiva misantrópica do ponto de vista absoluto com o plano de extinguir o máximo de seres humanos possível. Entende-se que, com a indecisão de sua mãe quando Bonaparta aparece para levar uma das crianças ao experimento, a indecisão tenha permanecido integralmente com as duas possibilidades coexistentes, de forma intercalada.
A separação, novamente, é um elemento reforçado semanticamente pelas duas fronteiras (Tchéquia e Alemanha, Alemanha Oriental e Ocidental) e muro no qual Johan caminha em algumas cenas. Mas o que quer dizer a parte de cima do muro?
Um dos argumentos possíveis em favor de uma educação comum a todos é justamente essa avaliação negativa com respeito ao ser humano em sua essência. Apesar de não ser uma interpretação oficializada dos Direitos Humanos, ainda é um caminho propenso a aterrissar na mesma conclusão.
Um procedimento, ainda que bem intencionado, qual seja capaz de nivelar as diferenças (almejando o mesmo propósito de incutir valores e saberes necessários à cidadania) justifica a severidade dos meios à medida da inaptidão da humanidade para isso. Tragicamente, no entanto, essa crença é uma profecia autorrealizável. Kinderheim 511 é um tema por si só; O orfanato em questão muito tem a ver com a cisão nos mais diversos sentidos dessa narrativa.Portanto, a "parte de cima" do muro é onde Johan de fato se encontra enquanto suas opiniões oscilam, tanto em acordo com os traumas dos experimentos no orfanato 511 quanto com as resoluções pessoais de seu entendimento do mundo. A consequência das ações de múltiplos personagens se manifestam através dele enquanto o jovem, por si só, não é ninguém(para os registros da Tchéquia, da Alemanha e para seu próprio senso de identidade).
É possível que, poucos momentos depois da ressureição do menino pelo Dr. Tenma (em alusão ao mesmo acontecimento em Astro Boy de Osamu Tezuka) o cuidado do médico para com ele tenha despertado a possibilidade de Johan ter sido escolhido em algum sentido, até mesmo pelo destino. Isso o impulsiona a continuar vivendo enquanto ainda existe uma parte de si pedindo para deixar de existir por conta de tudo que passou na infância.

A psicanalista Melania Klein, conhecida por estudar as complexidades da psique infantil, desenvolve uma teoria semelhante ao descrito. Contudo, as condições para o surgimento dessa "separação" na personalidade eram gerais e aplicáveis a qualquer criança.
O Ego imaturo do bebê é exposto, desde o nascimento, à ansiedade provocada pela polaridade inata dos instintos — o conflito imediato entre o instinto de vida e o instinto de morte —, assim como é imediatamente exposto ao impacto da realidade externa, que tanto produz ansiedade, como o trauma do nascimento, quando lhe dá a vida, como o calor, o amor e a alimentação recebidos de sua mãe. Quando confrontado com a ansiedade produzida pelo instinto de morte, o ego deflete. Essa deflexão do instinto de morte, descrita por Freud, consiste, segundo Melanie Klein, em parte numa projeção e em parte na conversão do instinto de morte em agressividade. O ego se divide e projeta essa sua parte, que contém o instinto de morte, para fora, no objeto externo original — a mãe. [...] A intrusão do instinto de morte no seio é geralmente sentida como dividindo-o (cisão) em vários pedaços, de modo que o ego é confrontado com uma multidão de perseguidores. Parte do Instinto de morte, permanecendo no eu (self), é convertida em agressividade dirigida contra os perseguidores.
(Introdução à Obra de Melanie Klein - 1975 SEGAL, H. ref: WINNICOTT, W. D. p. 36-37)
Com isso, é possível entender que a agressividade primária do pequeno Johan interfere em seu plano para apagar tudo em referência a seu nascimento; provocando as influências misantrópicas em sua relação com crianças, com quem ele possui maior identificação.

Da mesma maneira, Johan é como qualquer criança no sentido de ter potencial para o melhor e o pior que há na humanidade. Portanto, uma beleza muito grande nesta obra de arte é sugerir que Tenma também vê isso mesmo quando é possível interpretar sua resignação frente ao juramento médico. É preciso levá-lo até o limite dessas condições assim como, no início do texto, foi necessário observar até a suposta origem do personagem para tentar compreendê-lo em termos de maldade inata ou maldade construída.
Ao decorrer da narrativa, percebemos também como a pessoa de Tenma, Grimmer e principalmente Eva são circunstanciais e efêmeras. Em última instância, o 'vilão' da história percebe que ele próprio não nasce nem morre. Ao tentar ser morto tantas vezes, passa a apontar para o ponto central da consciência segundo a visão hinduísta.
O Átma ou Atman é um termo filosófico do hinduísmo, especificamente do Vedanta, usado para identificar a alma individual, ou "verdadeiro eu", traduzido como "Eu" para dar um caráter divino à alma individual, pois, segundo o Advaita Vedanta, o atma é idêntico ao Absoluto ou Brahman, e está além da identificação com a realidade fenomenal da existência mundana.
(ref: Os Sete Princípios do Homem de Annie Besant)

Quanto mais próximo da reta final do anime, mais Johan parece ciente da impossibilidade de conceituar as pessoas em termos de identidades fixas e julgá-las boas ou más. O resultado, no entanto, é o que Naoki Urasawa escolhe descrever por meio das palavras do inspetor Heinrich Lunge: "Johan era um criminoso raro, capaz de deixar de lado seus desejos um após o outro, 'como um Buda devotado à destruição.'" Nesse sentido, Liebert poderia ter representado uma inversão misantrópica de um Bodisatva¹, o contrário de um ser iluminado.

- O termo bodisatva vem de duas palavras em sânscrito: "bodi", que significa "iluminação", e "satva", que significa "ser". Em termos bem simples, um bodisatva é uma pessoa sábia e compassiva que valoriza e aprecia todos os demais seres.
No episódio 49 do anime e capítulos 97-99, observamos algo que subverte a ideia do Atman (como a doutrina budista, que propõe o anātman, ou seja, não-eu) no disfarce de Johann em Anna; fazendo referência, é claro, à identidade sendo confundida com a da irmã no principal evento traumático de sua vida. É possivelmente o episódio mais representativo do sofrimento do personagem em sua limitação psicológica de visão de mundo. Assim como a ele induz a criança a pensar durante o episodio, a ilusão de nascimento (referenciada na doutrina budista pelo anātman, já mencionado) demonstra como a continuidade dos impulsos humanos perpetua dor.
Porém, isso é explicitado da maneira mais covarde e cruel possível, evidenciando também uma indiferença relativa a sua própria dor e dos outros. Contudo, a intenção final é extinguir essa perturbação de modo absoluto, sem a possibilidade de convivê-la. O personagem mencionado mais de setenta vezes nesse texto é uma criança quebrada em pedaços, abandonada, torturada, mutilada e morta algumas vezes, mas oficialmente não há ninguém além de Kenzō Tenma capaz de vê-lo dessa forma. O então ex-médico pode não ter quaisquer insights acerca de sua existência no universo e da natureza profunda das coisas. No entanto, está mais próximo de um Bodisatva (ser iluminado) do que o garoto jamais poderia estar, possuindo a outra metade faltante em sua cosmovisão.
Uma nova maneira pela qual podemos compreender a pulsão de morte (instinto de morte) em proveito da natureza humana é compreender como o desenvolvimento emocional permite a consideração e a empatia. O final do anime é muito semelhante ao início, e o conjunto de elementos repetindo conforme o enredo avança:
É dito que todas as vidas são iguais perante a morte em referência à proposição de Eva Heinemann no início; Tenma decide por vontade própria salvar a vida do jovem com uma bala na cabeça mais uma vez; Ruhenheim torna-se o cenário do apocalipse em um caos semelhante a Kinderheim; a cama de seu paciente aparece vazia para Tenma da mesma forma como esteve assim que o garoto fugiu do hospital pela primeira vez. Em suma, é necessário “recordar, repetir e elaborar”.
A repetição de todos esses eventos é muito semelhante à tentativa de retornar ao ponto anterior ao trauma. Do ponto de vista da psicanálise winnicottiana, reaver os eventos ainda não integrados ao self é o modo pelo qual tentamos regenerar dessas feridas ainda não experienciadas. Para isso, correndo o risco de soar redundante, precisamos de nós mesmos.
Nesse mangá/anime observamos muitos traumas desse jovem emergindo a cada passo. Contudo, em última instância, a solidão que o levaria a encontrar si mesmo estava fadado ao fracasso, porque ele jamais esteve realmente sozinho, nem mesmo no útero. Para ficar sozinho é preciso ter o bem internalizado. Nas palavras de Grimmer:

Repetir, experienciar, integrar.
O que aconteceu quando Johan fugiu do hospital na última cena? Não precisamos saber. Ele deve ter voltado a ser humano.
Volte para casa.É preciso imaginar Johan feliz, porque ele também é todos nós.

“Eu sou você e você sou eu.
Não é óbvio que 'intersomos'?
Você cultiva a flor em si mesmo,
Para que eu seja belo.
Eu transformo o lixo que há em mim,
Para que você não tenha que sofrer."
(Thich Nhat Hanh)
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