Introdução
Fullmetal Metal Alchemist: Brotherhood é um anime que acompanha a história de Edward Elric e Alphonse Elric, que estão atrás da pedra filosofal, um artefato poderoso no mundo da alquimia, para ajudá-los a reverter a consequência da transmutação humana que realizaram em sua própria mãe com o objetivo de revive-la. A trama surge a partir disso, mas os irmãos Elric em sua jornada descobrem muitas coisas além, como conspirações, experimentos encobertos pelo governo militarista de Amestris, e toda uma verdade escondida sobre o mundo da alquimia. Mas, acima de tudo, os irmãos se desenvolveram e amadurecem perante a dor das consequências que o abandono do pai e a morte da mãe trouxeram para crianças como aquelas.
Enredo
Eu não quero me focar muito nos acontecimentos da história, mas todo o enredo de fullmetal é muito bom, o jeito que a narrativa te conduz junto dos protagonistas é algo gostoso de assistir, toda hora algo novo é apresentado ou revelado em relação a alquimia, como a pedra filosofal ser feito com seres vivos, o povo de Xing ter sua própria alquimia, o o plano do círculo de transmutação e etc. Todas essas coisas que poderiam deixar a obra mais confusa são introduzidas de forma tão natural, que você entende completamente e vê o sentido disso naquele mundo, o que faz com que cada mais os mistérios desse mundo fiquem muito mais interessantes de se acompanhar, o que 3 totalmente recompensado no fim com tudo tendo uma conclusão fechada e satisfatória. A única coisa que me incomodou um pouco foi a reta final da história, onde deixaram pra explicar o plano final do pai do Edward na prática, mas não sei, o jeito que tudo foi apresentado talvez seja diferente do que eu esperava, então julgo como um problema pessoal do que realmente da série em si.
Personagens
Acho impressionante como praticamente TODOS os personagens de fullmetal são legais! Um exemplo disso são os subordinados do Mustang, quando apareceram, achei que estariam ali só pra encher a história, mas até mesmo eles são carismáticos e agregam muito à narrativa. Esse é um grande ponto forte de fullmetal, os personagens são bem interessantes e a relação que eles criam entre si são muito boas, e mostram como realmente são únicos dentro daquela história, como pessoas reais. Um exemplo disso são como os irmãos Elric reagem ao reencontrarem o pai que os abandonou quando eram crianças. Edward guarda rancor e não o aceita como sua figura paterna, já Alphonse, o irmão mais novo, é bem mais empático e tenta entender o lado de Hohenheim, mostrando o contraste entre os dois, o que deixa tudo mais interessante de se acompanhar. Existem outras relações incríveis dentro da obra, como o Capitão Mustang e a Tenente Hawkeye, Ling Yao e Ganância, Olivier Armstrong e seu próprio exército, e ate mesmo a de Winry Rockbell e os Elric, todas e mais outras são ótimas interações que deixam o anime muito mais vivo.
Tentei me focar nos personagens como um modo geral, e todos são muito bons, mas, o único personagem que me incomodou um pouco em relação ao desenvolvimento foi o Scar. Ele é um ótimo personagem, toda a passagem dele de uma pessoa odiosa que sabe que está em um ciclo de ódio sem fim e alimenta isso vestindo um manto de "servo de Deus", para alguém que percebe que pode sair disso por outros meios sem ser a violência é muito bom, minha única crítica é que isso não tem um momento marcante, você consegue entender como o personagem chegou nisso, mas não consegue ver exatamente quando aconteceu, e isso me incomoda um pouco, mas não sei, é algo mais pessoal mesmo. Agora, quero tentar analisar e me aprofundar um pouco mais nos personagens que pra mim foram mais interessantes na obra.
Edward
Como sabemos, os irmãos Elric foram abandonados pelo pai, e Edward, como um bom irmão mais velho, tentou virar uma figura responsável onde Alphonse, o irmão mais novo, possa se apoiar. Desde sempre vemos Ed como alguém determinado e resiliente, e algo que é muito interessante no seu personagem é o seu orgulho. Ele sempre amou estudar alquimia, o que o fez se sentir tão confiante a ponto de mexer com a vida humana e ressuscitar a própria mãe, e sem ao menos perceber, tentou se igualar a deus, achando que tinha direito de atrapalhar o ciclo da vida. E é por isso que o experimento da Nina é tão impactante pro Ed, ele vê que um pai transformar sua filha em uma chimera, era no fundo, a mesma coisa que um filho tentar ressuscitar a própria mãe, independente dos fins, os dois acham que podem moldar uma vida apenas para o seu próprio propósito. Depois que a transmutação falha, Edward se sente totalmente impotente, e seu orgulho vira vergonha, vergonha por confiar tanto em si mesmo acreditando que resolveria aquela situação, e no fim, acabar piorando tudo, fazendo seu irmão perder o corpo e pensar que fez sua mãe morrer pela segunda vez. Ele carrega muita culpa dentro de si por todos esses acontecimentos, e por isso a todo momento tenta esconder seus sentimentos, sempre se mostrando forte, e redireciona isso ao seu objetivo de encontrar a pedra filosofal, ele quer a todo custo concertar o que fez, e é ai que seu orgulho retorna. É justamente por isso que a cena em que Ed abre mão da alquimia para trazer o corpo do irmão de volta é tão bonita. Ele percebe que, embora esse poder tenha sido responsável por suas perdas, foi também o que lhe concedeu a oportunidade de corrigir o próprio erro que cometeu. E depois de ter alcançado seu objetivo ele não vê mais sentido em continuar seguindo esse caminho, ele percebe que todo seu orgulho como alquimista o fazia achar que era muito maior do que realmente é, por isso aceita totalmente a ideia de ser um humano como qualquer outro, ele finalmente reconhece que é pequeno e vê que tinha recuperado tudo que precisava, essa é a troca equivalente de Edward Elric: ele sacrifica tudo que achava ser para ser aquilo que realmente é.
Alphonse
Do outro lado, temos o irmão mais novo, Alphonse, meu personagem favorito e talvez a pessoa que mais sofreu na obra. Al, diferente de Ed, era uma criança mais gentil e sempre apoiava o seu irmão mais velho, deixando-o tomar a frente nas situações, ele confiava no Edward, por isso, mesmo receoso sobre a transmutação humana, ele aceitou realizá-la. E como sabemos, ele acaba perdendo seu corpo no processo, com sua alma sendo acoplada em uma grande armadura, o que dá um bom contraste com seu jeito bondoso e cavalheiro de ser. Só isso é trágico por si só, mas, após o encontro com Barry, o Açougueiro, (uma armadura com alma) percebemos que Al, não se sente humano. Ele é incapaz de saborear os alimentos que o mundo oferece, não percebe os aromas no ar, não sente o calor na pele e sequer pode dormir, já que, diferente de um humano normal, ele não se cansa. Alphonse é totalmente livre pra fazer o que quiser, mas não tem a capacidade de aproveitar tudo que a vida pode oferecer, é como se fosse uma máquina que tenta viver como um ser humano. Toda essa dor reprimida o faz duvidar do próprio irmão, pensando se todas as memórias dele eram falsas e que o próprio não se passava apenas uma alma artificial. Eu, como espectador, nesse momento fiquei com raiva do personagem, porque já vimos todo o ponto de vista do Edward e sabemos que aquilo não era verdade, vemos como ele sofreu e como se sente culpado por tudo que fez o irmão passar, na minha visão aquilo não fazia sentido, mas, Alphonse tinha tanta dor reprimida, que quando viu a chance de culpar alguém pelo seu sofrimento, deixou a angústia que sentia todo esse tempo falar mais alto que a própria empatia. Com isso, ele toma coragem e confronta Ed, o que o deixa visivelmente abalado. Winry, uma pessoa que viu toda a situação dos irmãos Elric, principalmente do ponto de vista do Edward, sente a mesma indignação que eu senti, é como se a personagem falasse tudo que eu queria falar naquele momento. Ela mostra que todo aquele pensamento não fazia sentido e o leva a pedir desculpas ao irmão. A partir disso, surge uma cena profundamente tocante entre os dois, em que relembram os momentos que viveram juntos, lembranças únicas, impossíveis de serem recriadas artificialmente. Nesse instante, Edward recorda a prova mais concreta da existência de Alphonse: sua vontade inabalável de recuperar o próprio corpo, um sentimento singular que somente ele poderia ter. Na reta final da série, toda essa vontade citada também é colocada à prova quando Alphonse tem a oportunidade de finalmente recuperar seu corpo, mas, ao invés disso, decide voltar com sua armadura para lutar ao lado de seus amigos, e é exatamente isso que faz Al um humano, mesmo sem um corpo, ele tem a determinação e teimosia que apenas a humanidade poderia ter, todo esse sentimento e vontade de deixar de cumprir um propósito para proteger aquilo que amamos, é o que nos faz humanos.
Eu queria abordar principalmente os protagonistas, que são o centro da série e que pra mim foram muito bem desenvolvidos. Tentei analisar o começo e a resolução de seus arcos para mostrar como são trabalhados nas obras, claro que tem outros fatores, mas com isso já mostra o quão bom eles são. Agora, quero analisar os vilões.
Homúnculos
Existem antagonistas na obra, como Scar (no começo) Kimblee e etc, mas aqui quero focar nos verdadeiros vilões, os homúnculos e o Pai. Todos são inspirados em pecados capitais que foram retirados do corpo do seu criador, como forma de eliminar os defeitos dos humanos e se tornar um ser superior. Quero começar pelos menos relevantes: Gula, Preguiça e Luxuria. Apesar de não serem tão aprofundados, eles têm características que conversam muito com o que representam. Gula é basicamente uma criança inocente que sempre busca apoio em alguém, Luxúria é manipuladora e narcisista, e Preguiça tem um corpo enorme e capacidades físicas incríveis, mas deixa de explorar seu potencial por que se esforçar é chato, então prefere dormir. Apesar de serem simples, são bem interessantes e complementam bem a obra.
Agora, indo para os mais relevantes, temos Orgulho, Ira, Inveja e Ganância. Descobrir que o rei de Amestris é um homúnculo sanguinário é muito impactante, e todas as vezes que King Bradley aparece depois disso é simplesmente um terror, ele é um personagem muito imponente que gera cenas incríveis e tensas. Por ser um humano criado como uma arma, ele não se importa com nada além do seu objetivo e sente raiva da fraqueza que os humanos tem em proteger as outras pessoas, mas, apesar disso, ele mesmo escolheu quem seria sua esposa, talvez no fundo, sentiu que toda sua ira poderia ser acalmada com amor.
Se já é inesperado descobrir que o governante do país é um homúnculo, mais impactante ainda é saber que seu filho também é! Selim Bradley é a personificação do Orgulho, que curiosamente, é uma criança, o que encaixa perfeitamente com o personagem. A infância é o momento em que mais precisamos de cuidados e atenção, somos tratados como verdadeiros reis, recebendo tudo a todo momento que queremos, tendo nossas necessidades atendidas imediatamente, e para Selim, isso era o certo, já que ele mesmo se sentia como alguém superior. Isso é visto em seu próprio poder, ele ataca nas sombras e até controla os outros por meio delas, nem ao menos se esforça para ir ao inimigo, pois isso seria se rebaixar ao nível humano.
Eu disse que me focaria nos vilões, mas agora vou falar do Ganância, que começa como um antagonista, e no fim, vira um aliado, mas, ele faz parte dos homúnculos então faz sentido incluí-lo aqui. Esse foi um dos personagens mais interessantes pra mim. Primeiramente, ele larga seu Pai para seguir seu próprio, até porque não faz sentido a própria avareza aceitar se submeter ficar parado apenas obedecendo ordens, alguma hora ele iria ceder a seus próprios desejos de obter mais e mais. E uma coisa muito legal, é que toda essa ganância é tratada como um vazio que ele sente dentro de si, um vazio que tentava preencher com prazer, mulheres, pertences e poder. É por isso que o desfecho do personagem Ganância funciona tão bem. Ao longo de sua convivência com Ling (uma dinâmica muito boa) o homúnculo passa a compreender que o único meio de preencher seu vazio era a amizade de um verdadeiro companheiro. Ser amado e respeitado de forma genuína era, no fim, tudo o que ele realmente desejava. Em seus últimos momentos, ele percebe que alcançou isso e, assim, morre com sua ganância finalmente satisfeita.
Agora, o meu homúnculo favorito, Inveja, que deve ser o personagem mais odiado desse anime, e não é atoa, por meio dele que começa a guerra em Ishval e também é responsável pelo assassinato sádico de Hughes, um personagem bondoso sendo morto de forma tão covarde nutre ainda mais esse ódio pelo personagem, mas, surpreendentemente, quando sua morte finalmente acontece, eu senti algo que não imaginava.
Inveja é um homúnculo capaz de mudar de forma, ele se vê como um ser superior, frequentemente assumindo aparências humanas para se infiltrar e manipular pessoas, provocando guerras e revoltas ao longo de toda a série. Mas, algo interessante é que o homúnculo assumidamente sente inveja dos humanos. Ele percebe que, mesmo se considerando um ser superior, a humanidade é capaz de rivalizar com sua raça por meio de uma força de vontade extraordinária, mesmo diante das adversidades, algo que Inveja simplesmente não consegue aceitar. Como uma criatura quase perfeita poderia ser confrontada por seres que ele julga inferiores? É por isso que se sente profundamente humilhado ao ser compreendido por Edward, alguém que esteve no fundo do poço, atravessou o inferno e ainda assim conseguiu seguir em frente. Para Inveja, era inconcebível que um humano marcado pelo sofrimento ousasse entender a mente de um ser superior. Toda sua existência foi baseada nessa constante tentativa frustrada de superar a humanidade, por isso pra mim sua morte é digna de pena, não acho que saber de tudo isso faz dele uma vítima do seu criador, ele ainda é um ser desprezível, mas com certeza deixa o personagem bem mais interessante.
Pai
Então vamos falar do último personagem, o indivíduo que está por trás de toda a trama do animes, o "Pai", ou, "homenzinho do pote". Ele surge como uma criação humana, uma existência condenada a viver dentro de um recipiente, sem ter a mesma liberdade daqueles que os criaram, mas, de repente, encontra alguém como ele, um escravo, que não estava preso em um pote, mas, também não era livre para fazer aquilo que quisesse. O homúnculo o nomeia Hohenheim, e depois de alguns acontecimentos, ele finalmente consegue sua sonhada liberdade, obtendo um corpo de verdade com um custo das almas de uma cidade inteira. Agora ele quer ir além, não quer viver como um mero humano, tendo uma vida simples com família, pra ele, isso era um padrão que a humanidade desenvolveu para sobreviver, não queria de sujeitar a algo tão conveniente, ele quer ficar além disso, quer se tornar um deus, uma existência perfeita conhecedora de tudo nesse mundo, se humanos podem buscar seus sonhos, por que ele também não poderia? No fim, ele consegue, mas acaba sendo derrotado pelos humanos que apenas estavam tentando proteger aqueles que amavam, mostrando que o desejo arrogante de poder é muito mais fraco que a vontade imbatível de proteger.
O conceito do personagem é bem interessante, se analisarmos, percebemos que ele é a antítese do protagonista. Enquanto Edward sacrifica tudo que o fazia ser diferente dos outros em prol de viver uma vida simples e feliz ao lado daqueles que ama, o vilão passa por cima de todos para ser uma criatura perfeita. Mas, apesar disso tudo, eu não acho um vilão a altura dos outros homúnculos, ele não é um personagem ruim, só não teve o tempo de tela necessário e o carisma que os outros tinham, o que fez com que eu não me conectasse o suficiente, um detalhe triste, já que é o principal vilão da obra. Fica aquele sentimento de "se talvez fosse tal personagem no lugar do vilão principal, seria mais interessante". Isso mostra o quão bom Fullmetal é, ele te acostuma com tantas coisas excelentes que, quando surge algo apenas "bom", percebemos que aquilo por si só é insuficiente para algo tão bem elaborado.
Conclusão
Não sei dizer se essa série é genial e revolucionária, mas, o que ele se dispõe a fazer, faz com excelência, nessa análise me foquei apenas em alguns personagens de forma relativamente simples, mas existem tantos outros que podemos nos aprofundar. As mensagens apresentadas são tão ricas e bem trabalhadas que tenho certeza de que, a cada nova vez que eu reassistir, conseguirei absorver algo novo que vai me fazer amar ainda mais essa obra. Toda a construção de mundo e poder te deixa cada vez mais curioso sobre o que esta acontecendo, a estética e visual também é fascinante! No fim Fullmetal Alchemist: Brotherhood é uma mensagem linda de como a união da humanidade é mais bela do que toda a individualidade arrogante, mostrando que mesmo como humanos normais, podemos realizar muito mais coisas juntos, uma obra fantástica que todo amante de animes deveria consumir.
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