
Soul Eater
a review by M1xY

a review by M1xY
Soul Eater conta a história de uma escola fictícia chamada Shibusen, criada com o intuito de combater e eliminar os ovos de Kishins, que são seres que devoram almas humanas para se tornarem mais poderosos, e as Bruxas, que vivem aterrorizando o mundo. Os encarregados de eliminar esses seres são os artesãos, que além de eliminar os Kishins, devem ajudar suas armas a se tornarem Death Scythes, para o Shinigami usar como sua própria arma. Os artesãos devem fazer suas armas devorarem um total de 99 ovos de Kishin e uma alma de bruxa para serem uma Death Scythes. O anime tem início com três prólogos, onde cada um conta a história dos personagens principais e como funciona a mecânica de artesão e arma. O primeiro episódio apresenta a Maka Albarn, artesã da foice, e seu parceiro arma, Soul Eater Evans. O segundo apresenta o Black Star, um artesão com técnicas de assassinato, e sua parceira arma, Tsubaki Nakatsukasa. Por fim, é apresentado também o filho do Shinigami, Death the Kid e suas duas parceiras: Patti Thompson e Lizzy Thompson. O anime foi produzido pelo estúdio Bones e estreou em março de 2008 na TV Tokyo. Ele possui 51 episódios, dos quais tomaram um rumo diferente do mangá em sua reta final.
Dada a explicação de sua premissa, é necessário avisar que essa review contém spoilers de determinados pontos de Soul Eater que podem comprometer sua experiência. Por sua conta em risco, prossigamos com a análise começando pela sua trama.

De começo, é difícil entender qual será o rumo que sua trama irá tomar. Ao que nos é apresentado durante os prólogos, a proposta parece ser voltada para que os artesãos tenham sucesso em transformar suas armas em Death Scythes. Porém, esse conceito é rapidamente deixado de lado, abrindo espaço para uma trama mais dispersa no começo, onde poucas coisas te indicam um rumo definitivo, mas aos poucos as situações que eles acabam passando vão formando o que vem a ser a trama central de Soul Eater. Ela não é inovadora, muito menos rotineira, se encaixando mais num meio termo entre os dois, porém a forma como é trabalhada desperta muitos elogios para sua escrita. Soul Eater é mais um que se utiliza da estrutura narrativa que já vimos em vários outros animes do tipo Battle Shounen, porém com a grande diferença de ter uma trama bem mais descompromissada que o normal do gênero. Mesmo que em determinados pontos ainda tenham seus momentos de seriedade, a obra sempre acaba recorrendo ao uso de piadas com intuito de quebrar qualquer tensão que possa ser criada em cada cena. Isso pode parecer algo problemático, mas é exatamente aí que está um dos maiores charmes de Soul Eater. Ele não se leva a sério, e nem tem a intenção de criar uma tensão com aquelas situações abordadas, mas sim de poder inserir seu estilo de comédia mais escrachada para tirar qualquer peso de seu público, apoiando-se muito em sua excentricidade para realizar tal feito. Por sua vez, clichês e fórmulas tão criticadas dentro do gênero podem aparecer nessa forma de estilo de comédia sem comprometer a experiência, sendo completamente capaz de qualquer um ignorar tais pecados, pela forma como são abordados auxiliarem o tom cômico que a narrativa da obra trás. A partir de certo ponto isso muda, porém ainda não chegamos a essa parte da análise.
Com enorme mérito, o maior acerto de Soul Eater é o quão estiloso ele é e a identidade visual que ele expressa. Sua estética é completamente única pela sua primorosa mistura de inspirações, sendo bem visíveis desde a construção da Death City e seu excelente design de personagem, com uma caracterização visual muito bem definida, até cada traço de personalidade mais excêntrica dos personagens, que recorre a alguns dos padrões estereotipados que vemos no gênero, mas os difere com aspirações e ambições tão envolventes que fica difícil os comparar com personagens com padrões pré-estabelecidos que sequer parecem acreditar em seus sonhos. Falando de personagens, não só suas personalidades e motivações são destaques, mas os seus desenvolvimentos também demonstram o quão bons eles podem ser. Em especial, o do Black Star e do Crona que se destacam dos demais, não só por tomarem maior parte do show no quesito desenvolvimento em relação aos outros, mas por serem personagens muito bem aproveitados. A curva de personagem que o Black Star sofre e toda a mudança da passividade do que é imposto ao Crona são os melhores exemplos de seus desenvolvimentos, e sem dúvida valem as situações criadas por eles. Por outro lado, sinto que a mais "principal" não teve nada a altura, mesmo que tenha rendido um bom desenvolvimento juntamente com o Soul mais próximo da parte final.
Outro ponto importante a se mencionar é o seu worldbuilding. A variedade que ele apresenta impressiona pela grande mistura de crenças, mitologias e culturas que não provêm apenas do Japão, como as ideias do Shinigami e do estilo Ninja, mas também de outras partes do mundo, em especial da Europa, com seres fictícios como Lobisomem, Bruxas, Vampiros, Zumbis, e até mesmo o Frankenstein e a lenda da Excalibur estão aqui. Todos muito bem caracterizados e inseridos dentro da história e do estilo de Soul Eater, tornando o seu mundo extremamente rico, não só em quantidade, mas em principalmente em variedade, além de corroborar com o lado mais cômico da primeira parte.
Quanto a sua produção, esse anime apenas é mais uma prova que, mesmo que ainda venha numa excelente fase, o estúdio Bones teve seu ápice entre 2005-2010. Ele é mais um exemplo de produção que combina um ótimo combate, proveniente de uma ótima animação e de suas coreografias bem pensadas, com um ótimo estilo de arte. Para engrandecer ainda mais o show, sua trilha sonora é fantástica. Tanto as músicas utilizadas em momentos mais frenéticos, como lutas e certas sequências mais voltadas para a ação, quanto na parte mais cotidiana e rotineira dos personagens, como na Shibusen ou quando em algum canto mais favorável ao lazer. Independente da ocasião, sua trilha sonora está sempre lado a lado da intenção da cena, e mesmo quando o show tem seu tom mais descompromissado deixado de lado, a sua trilha acompanha com maestria para encaixar nos melhores momentos possíveis.
Por falar nisso, acredito que já está na hora de mencionar uma questão e ela é a troca dessa trama mais descompromissada por uma com um ar mais sério que Soul Eater adota em sua segunda metade.
Depois dos eventos da primeira parte e com o impacto que eles tiveram na estrutura daquele mundo, o tom descompromissado tem uma grave diminuição, o que dá lugar a uma trama mais séria e com uma sensação de urgência, que até então não havia sido explorada na obra. Independente de qual estilo você prefira, essa mudança é totalmente justificada narrativamente, visto que o perigo que a libertação do Kishin representa acaba sendo algo grande demais para os personagens simplesmente agirem de modo tão displicente quanto na primeira parte. Porém, é infelizmente nesse ponto que a obra começou a errar e se perder um pouco em sua execução, pois junto com essa mudança de tom, alguns problemas acabaram ficando bem evidentes, por justamente necessitarem ser levados a sério como o próprio tom adotado nessa parte requere. E eu abordaria três problemas estruturais na minha experiência com Soul Eater. Problemas esses que, de um jeito ou de outro, diminuíram muito meu apego com a segunda parte do anime e que provavelmente tirou sua chance de entrar no meu Top 10 de Melhores Animes. E sinceramente, pode até parecer presunçoso, mas foi muito mais fácil falar da parte ruim de Soul Eater do que da parte boa. Creio que isso se deva aos problemas de Soul Eater estarem muito concentrados em sua segunda metade, enquanto tudo de bom dele está espalhado por diversos momentos da obra, dificultando uma análise mais precisa de todos esse pontos. Mas isso é apenas uma observação pessoal e não deve ser levada como um fato da obra em si, então vamos aos reais problemas de Soul Eater na minha visão.
Após a suposta morte da Medusa e do desaparecimento do Kishin, a obra se via na necessidade de um antagonista para movimentar sua trama, e é nesse ponto que nasce a Arachne. O anime tem todo um cuidado para tornar plausível a aparição dela, além de ligar vários pontos da história contada até então com a personagem, tornando crível que ela realmente exista na obra. Porém, o único e real intuito da sua adição é simplesmente para movimentar a trama. Seja na utilização de seu exército, ou na sua forma de somar forças ao trazer o Kishin para seu lado, a Arachne é visivelmente um recurso que o roteiro necessitava implantar na obra para que sua trama se movesse para o seu clímax final. É inegável que ela serve ao seu propósito, mas acaba soando muito mal aproveitada, uma vez que ela estava substituindo a Medusa que tinha mais utilidade na história além de movimentar a trama e encaminhar ela para seus pontos de virada. A própria relação com o Crona e a sua proximidade dos alunos como enfermeira na Shibusen davam a personagem muito mais utilidade dentro da trama. Além disso, a Arachne parece ser movida por um único desejo que é o de vingança contra o Shinigami, tornando ainda mais difícil apontar uma qualidade sua em relação ao antagonismo proporcionado pela Medusa, uma vez que também tinha suas motivações anarquistas já bem batidas, mas que não aparentavam como problemas por serem bem exploradas e justificadas dentro da narrativa, além de serem bem disfarçadas pelo tom descompromissado da primeira parte.
Outro problema também surge nessa parte, especialmente pós libertação do Kishin, e ele é a utilização do conceito da loucura do Kishin. A obra tenta estabelecer um senso de urgência em que, com a premissa de que ele estando solto, a loucura do Kishin afetará todas as criaturas. Porém, somente em dois casos que essa loucura realmente é explorada, que é no despertar da Arachne e na loucura do Stein acabar se intensificando. Um efeito é para justificar a adição de um elemento encaminhador a história, enquanto o Kishin e a Medusa saem de cena, e o outro é para gerar conflito dentro do “lado do bem”. E sendo bem sincero, eles cumprem seu propósito. Porém, dado a ótima ideia que essa influência poderia exercer e a forma como poderia abalar aquele mundo, considerando todo o modo como ela foi utilizada no final do episódio 22, é realmente triste ver que eles optaram por utilizar apenas isso para dar conteúdo e rumo na segunda parte do show. Novamente, ela serve a um propósito narrativo, além de que ainda abre toda uma subtrama do Stein e da relação do Crona e da Medusa, mas não vai além de nenhum outro jeito, mesmo que sua proposta, em teoria, devesse abalar todo aquele mundo e os personagens dentro dele. Soa muito estranho que ninguém além do Stein pareça ter sido afetado, ainda mais no fim do anime onde ampliam esse efeito da loucura e aumentem ainda mais o senso de urgência.
Ou seja, mesmo com um tom bem mais sério nessa segunda metade, o anime se contenta em estabelecer consequências apenas para dar rumo a trama e, no máximo, gerar uma subtrama envolvendo algum dos personagens, mas opta por deixar de lado na hora de provar para o seu público o quão problemáticos aqueles acontecimentos podem ser, destruindo um pouco a imersão. O objetivo de cada escolha está sendo atingido e isso é bom, mas as possibilidades daqueles recursos precisavam parar naquele ponto? Eu realmente não acredito que mais é necessariamente melhor, inclusive podendo pender para o outro lado da balança, mas observando a qualidade que Soul Eater tinha até o momento, creio que o risco era válido e a recompensa altíssima. É nesse ponto que eu acho que Soul Eater mais erra em sua segunda parte, pois ele desperdiça potencial demais por não acreditar nos frutos que pode colher.
Ainda em relação aos problemas, porém já em seu clímax final, o anime acaba fazendo uma escolha no mínimo curiosa. No embate final, da Maka contra o Kishin em sua melhor forma, a luta é resolvida com o uso de um simples soco? Bem, não é isso que de fato acontece, e mesmo que eu ainda veja isso como um problema, vou tentar explicar o motivo dessa resolução. Mesmo que um dos maiores problemas do Battle Shounen seja justamente esses poderes justificados com emoções/sentimentos, Soul Eater está longe de fazer algo do tipo ou pelo menos do mesmo nível dessas outras obras. Ao longo da série, eles abordaram um tema para dar um background maior para alguns dos conflitos de seus personagens. Esse tema era a relação do Medo e Coragem, e as influências que foram geradas nos personagens por essa relação. Temos exemplos bem fáceis disso na obra. A própria concepção do Kishin era de um ser que foi tomado pelo medo e consequentemente pela loucura e viu na busca de poder uma forma de resolver isso. A Maka e o Soul também, já que diversas vezes eles apelaram pelo poder do demônio dentro do Soul para conseguir enfrentar seus medos. O Crona que era quase a definição de um personagem medroso é o exemplo mais claro, onde por sempre estar com medo por estar sozinho e por não saber como lidar com as pessoas, ele abraça a busca pelo poder mesmo sem almejar ser poderoso. Então quando ela dá aquele soco de coragem, nada mais é do que uma tentativa da obra de dar uma resposta ao público de que ter Coragem é a melhor maneira de enfrentar o Medo. Quem representava o Medo naquele momento era o Kishin, então acaba sendo uma forma metafórica de encerrar aquela luta, tanto é que no fim aparece uma mensagem na tela dizendo:"O Segredo é a Coragem!".
Então por que isso é se caracteriza como um problema? Bem, a questão não é a metáfora em si... é mais a forma como isso foi estruturado bem no fim do anime. Querendo ou não, a obra não estava discutindo ativamente essa relação de Medo e Coragem, então não é como se pudesse utilizar de tal metáfora para definir algo tão importante como um clímax final. Acima de tudo, Soul Eater ainda é um Battle Shounen e terá o público de tal gênero. Como essa temática em poucos momentos apareceu e nunca ficou clara de sua presença como conceito norteador de Soul Eater, acaba sendo um pouco difícil de aceitar um final daquele. A ideia é plausível, pois está minimamente conectada e inserida dentro da obra, mas ainda é complicado de olhar e pensar que aquela era a maneira ideal de finalizar o anime. Porém, de todos as coisas que me incomodaram, essa foi a menor delas, mas o hate por esse final é absurdamente desproporcional, então acho extremamente válido tentar dar minha visão e interpretação do que foi essa conclusão.
Soul Eater chegou num momento para mim aonde eu não poderia pedir por algo melhor. Depois de cair na mesmice que a maioria dos Battle Shounens estão rumando, ver algo tão descompromissado e com uma estética tão única foi um soco no estômago para colocar para fora todas as porcarias que eu já vi do gênero, e ainda serviu para alimentar uma esperança de que ainda tem muita qualidade nesse tipo de estrutura narrativa, mas as obras precisam sair dessa bolha de repetição. É inegável que em certo ponto ele pode ter se levado a sério demais e talvez isso tenha dado abertura para que seus defeitos aparecessem, porém ainda é um espetáculo visual incrível e que merece muito reconhecimento por trazer um novo estilo de visão do gênero. Uma pena não ter saído nos dias atuais, pois poderia mostrar pro mercado atual que é possível sair dessa zona de conforto e agradar o seu público. Fácil de assistir e prazeroso durante quase todo o show. E mesmo que não esteja livre de defeitos, a experiencia é extremamente consistente no seu entretenimento e praticamente única na sua estética. Um ótimo começo para quem busca o caminho da redenção por gostar de certas drogas pesadas nesse mundo do Battle Shounen!
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