
Ride Your Wave
a review by M1xY

a review by M1xY
Antes de prosseguir com essa review, devo avisar que a premissa pode ser facilmente considerada como um resumo de metade desse filme. O trailer por si próprio já entrega tudo isso, mas como sei que alguns se incomodam bastante com esse tipo de apresentação, devo avisar que a partir deste ponto, o que vem pela frente contém spoilers. Por sua conta em risco, prossigamos com a premissa.
Hinako Mukaimizu é uma jovem que se muda para uma cidade costeira afim de cursar sua faculdade e praticar seu hobby favorito: o Surf, sem se preocupar muito com o que será de seu futuro. Quando o apartamento em que morava pega fogo, ela é resgatada por Minato Hinageshi, um bombeiro com um forte senso de justiça. Hinako é atraída por sua personalidade confiável e rapidamente formam laços quando ele começa a aprender como surfar. Com o passar do tempo, ambos começam a se apaixonar e constroem uma relação amorosa, porém, durante uma tempestade, Minato se afoga ao tentar resgatar uma pessoa. Hinako se vê bastante abalada com sua morte, mas em um certo dia, ela descobre que pode fazer ele aparecer em superfícies aquosas toda vez que canta "Brand New Story", uma canção que ambos costumavam cantar juntos. Inicialmente feliz que ambos possam se ver novamente, logo Hinako é confrontada com o fato de que ela não pode ser livre a não ser que siga em frente. Temos uma história de amor que aborda temas como maioridade, aperfeiçoamento através do trabalho duro e a superação de uma perda. E mesmo que essa premissa acabe entregando boa parte do enredo do filme, ela foi interessante o suficiente para chamar minha atenção. Uma pena que não posso dizer o mesmo de sua execução.
A Hinako e o Minato são completos opostos, mas essa não é uma história de um romance clichê com justificativas do tipo "Os opostos se atraem". Esse adverso de características entre os dois é utilizada para trabalhar um de seus temas através do conflito central de sua personagem principal. Uma de suas metáforas mais citadas é a de "Surfar sua onda", que seria algo como andar por si só dentro do contexto apresentado nesse filme. Por mais que a Hinako tenha alguns pontos positivos, como um enorme carisma por exemplo, ela rapidamente se mostra extremamente incompetente em várias áreas. Mesmo morando sozinha, é nítida sua total falta de preparo para sustentar tal decisão. Ela não sabe cozinhar, não arruma sua casa, é bem desajeitada, e como se já não bastasse tudo isso, ela ainda não faz ideia do que pretende fazer do seu futuro, mesmo cursando uma faculdade. Sua única preocupação é Surfar, tanto é que se mudou para longe de seus pais apenas para ficar mais próxima do mar. É então que o Minato entra em cena. Ele é um jovem que já tem clara noção do que fará da sua vida, mas que vê na Hinako alguém que necessita de apoio para encontrar seu caminho. Porém, ao fazer um paralelo ao seu estilo de vida e incentivar uma mudança na personagem, ele acaba cultivando sentimentos. O romance entre os dois se dá através de um das melhores sequências, onde acompanhamos o desenrolar da relação com a música "Brand New Story" sendo cantada pelos dois de fundo. Entretanto, mesmo que a montagem seja ótima, a utilização desse recurso opta por apressar o desenvolvimento do romance, o que é compreensível quando se tem pouco tempo, mas que inevitavelmente acaba deixando de lado uma apresentação mais íntima com o público, tornando toda relação dos dois pouco relacionável. Por sua vez, isso é algo que quebra bastante a imersão no segundo ato, que gira principalmente em torno dessa dependência da Hinako para com o Minato após sua morte. Me importar com isso foi uma tarefa bem complicada, sendo um sério problema em alguns de seus ápices emocionais, por eu não estar cativado o suficiente com as situações passadas, por justamente serem baseados no quanto eu me importava com a relação dos dois. As cenas que extraíram algum tipo de sentimento meu foram mais relacionadas as resolução dos conflitos de seus personagens, pois esse é trabalhado durante o filme inteiro e, como já disse, cada um tem bons conflitos na teoria.
Do segundo ato em diante, temos uma trama mais voltada para desenvolver esses conflitos. É nesse parte que os temas de maioridade e a superação de uma perda começam a ser o foco principal. Ao acompanharmos a Hinako, vemos que a sua dependência fica ainda mais evidenciada quando ela não consegue sair do lugar por causa da falta que sente do Minato, que era visivelmente o seu porto seguro. Porém, após descobrir que pode cantar para fazer o Minato aparecer em alguma superfície aquosa, ela começa a sempre recorrer ao seu auxílio toda vez que se vê com algum problema. É então que ela começa a agir como se estivesse alucinando, pois ninguém além dela consegue o ver, o que gera preocupações das pessoas ao seu redor. Nesse ponto, é interessante ver como ela opta por isso ao invés de superar a perda, entrando num estado de conforto com toda essa situação. Por sua vez, o funcionamento do Minato nessa parte só começa de fato quando ele começa a incentivar a Hinako a seguir em frente, porque do ponto de vista romântico, apenas algumas cenas prestam graças à sua beleza estonteante. Mais próximo do fim, algumas revelações até que bem previsíveis finalmente tiram a Hinako dessa sua zona de conforto, ao ensinar uma lição relacionada ao quão duro o Minato teve que trabalhar para que conseguisse fazer as coisas direito, e que ela poderia seguir nessa mesma linha. No entanto, mesmo após descobrir o que pretendia fazer daquele ponto em diante, ela ainda não tinha seguido em frente com a perda dele, o que ainda segurava sua evolução. O clímax do incêndio serve justamente para isso. Por mais imbecil que possa parecer uma mega onda saindo do topo de um prédio, devo admitir que aquela cena era necessária para complementar a narrativa. Além de mostrar que não era apenas uma alucinação da Hinako, também se faz necessário para sinalizar que finalmente ela conseguiu "surfar sua própria onda", superando a perda de seu amado, mas encontrando um novo sentido em sua vida para que ela possa seguir em frente. Até esse ponto, minha experiência estava boa o suficiente para validar essa obra, mas o meu problema surgiu logo após essa parte. Em certo momento de fragilidade e solidão, ela tenta chamar novamente o Minato, como se ainda não tivesse conseguido virar essa página, e isso quebrou toda minha experiência. Entendo que é normal ansiar por alguém em certos momentos de desespero, mas quebrar toda a narrativa que parecia ter se concluído só para adicionar mais um ápice emocional não me pareceu necessário naquele ponto. É confuso saber se ela realmente aprendeu algo nessa jornada inteira, e por mais que as metáforas que o Yuasa constantemente usa demonstrem que sim, ela superou tudo e está preparada para seguir em frente, essa cena vai contra toda a resolução apresentada até o momento, quebrando totalmente a perspectiva que tinha criado ao longo do filme.
Entretanto, nem só de Hinako e Minato se faz esse filme, e temos dois personagens com outros tipos de conflitos para acompanhar em suas jornadas para conseguirem surfar suas próprias ondas. Em ordem cronológica, conhecemos primeiro o Wasabi Kawamura, que é um bombeiro do mesmo esquadrão do Minato. Ele tem certas dificuldades para se virar dentro dessa área, o que acaba sempre fazendo com que ele se idealize em ser como o Minato, alguém muito capaz de fazer quase tudo. Sinceramente, esse é um tema que me cativou instantaneamente, pois assim como o Wasabi, é muito normal pensarmos em desistir de algo por acreditar que não fomos feitos para tal coisa ou então acabar se espelhando nos melhores, o que torna seu conflito bastante verossímil. O problema é que isso é mais secundário que o próprio personagem, então raramente isso vem à tona ou recebe um tratamento mais dedicado, sendo só um background bem superficial para dar alguma importância dele a história e sendo resolvido em pouquíssimas cenas, o que demonstra o quão irrelevante sua jornada era para esse filme. Depois dele, somos apresentados a Youko, a irmã do Minato. Com sua personalidade agressiva e uma língua bem afiada, sua relação com a Hinako é bem importante para as duas, mas ela sofre de uma bipolaridade incompreensível e irritante. Ocasionalmente elas se dão extremamente bem, mas na maioria das vezes parece apenas odiá-la. E mesmo que também tenha um background bem superficial como o do Wasabi, ao menos é interessante ver a sua visão de amor sendo "alterada" durante o filme. De começo, ela tem uma falsa retórica de que isso é algo para pessoas idiotas, mas com o desenrolar do filme, vemos que sua visão é o completo oposto, quando demonstra certo sentimento pelo Wasabi após ele ter ajudado ela num dos momentos mais difíceis de sua vida. Ao fim, vemos que ela finalmente foi sincera com tais sentimentos, fazendo com que ela comece a surfar em sua própria onda de amor. É uma personagem que dá uma boa dinâmica em certos momentos, mas que necessitava de um melhor desenvolvimento para que pudesse ser mais apegável.
Como já ficou claro, uma questão central nessa obra é a utilização da música "Brand New Story". E não é à toa, já que ela foi inserida de todas as maneiras possíveis. A princípio, parece apenas uma música letrada que alterna entre ser uma trilha sonora diegética e extra diegética, e que condiz muito com o cenário costeiro que o filme se passa e com as temáticas abordadas. Mas como ficou claro na premissa, ela é fundamental para a trama. A escolha pode ser apenas de um ponto de vista do Marketing ao trabalhar com artistas pop como Generations from Exile Tribe, mas ao menos é bem inserida no contexto dos personagens adorarem tanto essa música. Porém, em determinados momentos ela se torna extremamente insuportável. Devo dizer que foi particularmente irritante ver a todo momento os personagens cantando a mesma música, então depois da quinta vez, eu estava multando o volume toda vez que isso ocorria. A música em si não é ruim, e como já disse, tem uma boa letra que condiz com o filme, além de ter uma melodia boa e soar de forma bem agradável ao se ouvir. No entanto, isso definitivamente não se aplica com a voz dos personagens... fica insuportável. Tudo bem que na situação deles, ninguém precisaria cantar como se estivesse fazendo uma apresentação num show de talentos, mas precisava mesmo deixar tão claro que eles não tinham esse dom musical? O pior é que as vozes dos dubladores combinam bastante com as características de cada personagem, então não vejo como poderiam ter resolvido esse problema. Bem, esse parece ser um sacrifício necessário para ver o resto. Irritante e insuportável, mas necessário.
Todavia, nem tudo são defeitos, e algo que me agradou bastante foi o método como o Yuasa usa algumas metáforas para indicar as evoluções dos personagens e o que virá pela frente. Seja coisas mais singelas como a Hinako não saber fazer um omurice ou um foco inicialmente estranho em superfícies aquosas, até coisas mais evidentes, como o Kawamura ser mais lento que o Minato para vestir a roupa dos bombeiros, indicando a enorme diferença entre as habilidades dos dois. Por vez, isso alivia muito o texto do filme, pois não precisam recorrer a tantos diálogos ou monólogos expositivos. O Yuasa demonstra dominar a arte do "Show, don't tell", que é muito bem utilizada aqui. Essa é uma técnica usada em vários tipos de obras para permitir que o público experimente a história através de ações, palavras, pensamentos, sentidos e sentimentos, e não através da exposição, resumo e descrição do autor. Essa é uma área que ele realmente merece um enorme crédito, fazendo um bom trabalho graças ao seu ótimo tato, que entende e desenvolve boas metáforas para elevar o nível da escrita. Falando ainda da direção do Yuasa, esse é um diretor que é muito conhecido por seus mundos distorcidos e mais depressivos. Porém, essa claramente não é uma das marcas desse filme, já que esse é um filme bem mais realista, mesmo com a presença de elementos fantasiosos. Particularmente, não vi muitos trabalhos desse diretor, mas do pouco que vi, é inegável que ele tem seu próprio estilo. Mesmo que esse seja um filme com uma estrutura mais padrão, a voz do Yuasa emerge para dar uma boa diferenciação que vai muito além do seu uso de metáforas visuais. Além do seu estilo característico dos designs de personagens, ele consegue caracterizá-los com simples detalhes que entram em tela. Por exemplo, descobrimos que a Hinako não tem costume de organização quando vemos que ela nunca arruma as caixas da mudança, corroborando com seu estilo de viver a vida. Esses detalhes enriquecem o espetáculo visual, que já era rico o suficiente com storyboards muito bem pensados e cenas deslumbrantes de tanta beleza visual, sustentados primorosamente pela qualidade da animação entregue pelo estúdio Science SARU. Acredito que seu único pecado seja em um determinado momento, quando não ficou claro qual tom ele iria adotar durante o drama da Hinako após a morte do Minato. As piadinhas continuaram e por algum momento, descredibilizaram o sofrimento que ela estava passando. Não sei se o intuito era quebrar um clima mais pesado que eventualmente poderia tomar conta, mas isso afastou ainda mais minha empatia para com a sua dor.
Kimi to, Nami ni Noretara é um daqueles filme que tem temas interessantes, mas que suas execuções podem não agradar todo mundo. Seja no foco dos personagens principais ou secundários, nada me agradou completamente a ponto de me relacionar com os conflitos apresentados, pois tudo tinha algum detalhe que quebrava minha imersão. O Yuasa faz o possível com sua ótima direção, mas que pouco adianta quando a trama é tão inconsistente ou só parece ser mal trabalhada mesmo. É inegável que o tempo que tinha para trabalhar era escasso, mas poderia ser melhor com outras decisões. Caso esteja procurando um bom romance, ele não entrega um desenvolvimento satisfatório. Uma boa fantasia? É apenas um pretexto da premissa para movimentar a trama. Um bom drama? Talvez pela catarse emocional, mas algumas piadinhas no meio podem te tirar do sério. Basicamente tudo que esse filme representa não faz jus a qualidade do que poderia representar, então não sei a quem deveria recomendar este filme. Não é das piores coisas que já vi, longe disso. Mas também não é uma das melhores coisas que já vi, longe disso. Aqui tivemos uma experiência mediana que poderia ter ido muito além, então numa visão geral, é uma decepção bem lamentável. Eu não surfei nesse filme, e você?
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