Fourteen - Uma grotesca, surreal e maluca visão do fim (Sem spoilers)

É no futuro século XXII que a humanidade se encontra em um avançado estado de nível tecnológico, mas ao mesmo tempo, seus impactos causados sobre o planeta são tamanhos que causaram a extinção de inúmeros animais devido seu egoísmo (algo não muito distante de nossa realidade contemporânea).
Porém, é quando em uma Companhia fabricante de frangos artificiais em Tóquio, que o pesquisador Shigeno ao verificar um dos tanques de criação com células de peitos de frango, encontra uma inesperada mutação presente em um desses frangos:
Um Olho!
Esta estranha mutação assusta o Shigeno em primeira instância, mas o torna fascinado a estudar aquela estranha coisa que estava se desenvolvendo a partir do peito de frango, levando ele a esconder o achado dos colegas de trabalho e manter aquela coisa crescendo, formando um coração, depois um corpo humanóide, e talvez aprendendo a falar.
Quando um de seus colegas tenta descobrir o que Shigeno estava fazendo com um dispositivo, ocorre um acidente no laboratório, obrigando ele a esconder a criatura em um saco de lixo e leva-la junto de si quando é resgatado do laboratório, mas a coisa acaba caindo do veículo e Shigeno diz o endereço de sua casa e joga as chave.
No hospital, o pesquisador começa a ter maus sentimentos quanto a suas decisões e visões daquela coisa que não é um frango nem humano. Ao sair do hospital, percebe uma trilha de sangue com cachorros mortos levando até sua casa, com ele encontrando aquele ser alí quase morto!
Impressionado com a inteligência daquele frango, até pensa em dissecar seu cérebro para estudá-lo, porém é tomado de compaixão por aquela criatura decide por não o fazer e cria aquilo em casa, escondendo esse fato de sua esposa.
Entretanto, aquele frango começa a tomar gosto por conhecimento, e quando Shigeno acorda amarrado a sua cama, vê que aquela criatura está mexendo em seu computador adquirindo os mais diversos conhecimentos humanos e sobre a Terra numa velocidade incrível, criando em si um sentimento de ódio pela raça humana por suas atitudes irresponsáveis sobre a natureza, assim se autonomeando com o mais aterradoramente temível nome:
GEORGE, O FRANGO

E é aí que umas das histórias mais malucas que já li começa.
Introdução
Escrito em 1990 até por volta de 1995, Fourteen é um mangá de Horror como também Ficção científica, sendo uma das últimas obras do considerado "Pai dos mangás de terror", Kazuo Umezo. Ele começou a desenhar bem cedo, e inicialmente inspirado por histórias de terror que ouvia de seu pai na infância e pelos mangás de Tezuka, começou a escrever seus mangás principalmente durante a década de 60 a 80, virando uma referência no cenário do terror, mas não se limitando somente a isso, como também fazendo obras da demografia Shoujo e de humor.
Suas obras inspiraram muitos outros artistas como o grande Junji Ito! Que inclusive, quando ele publicou sua primeira obra, Tomie de 1987, conseguiu uma menção honrosa no Prêmio Kazuo Umezo.

Eu pessoalmente não tinha muito interesse em seus mangás, muito mais por não conhecer muito quem ele era ou o quanto era importante, porém, quando acabei encontrando Fourteen por acaso que pude compreender o que tinha de especial em suas obras, e depois de ler me encontro bastante convencido a dar uma lida em outros de seus trabalhos. E foi pesquisando sobre ele que inclusive encontrei várias curiosidades como ele já ter gravado álbuns musicais (acabei escutando eles enquanto escrevia a análise).
Arte
Algo a se notar de primeira vista é o traço único de Umezo, ele traz uma espécie de realismo em seu desenho, ao mesmo tempo bastante exagerado, oferecendo muita expressividade aos seus personagens, agregando ao clima surreal e absurdista de toda a história. Os cenários são simplesmente incríveis! Todos extremamente detalhados, especialmente em páginas duplas. Quanto as várias monstruosidades e criaturas que aparecem neste mangá são coisas que nem sei como começar a descreve-las, como por exemplo George o Frango, que mesmo com uma cabeça animal, consegue ser um personagem bem expressivo, adicionando muito carisma a ele, e algumas outras coisas que aparecem como a Mestre Rose parecem facilmente terem saído de alguma obra do H.R Giger. Talvez minha única crítica a arte seria que alguns momentos é bem difícil saber o que está acontecendo, mas a quadrinização é bem dinâmica então não atrapalha muito.




História no geral
Talvez você ao ler esta curiosa premissa, talvez pense que esta história não teria como ser muito longa.
Ah, ledo engano, pois de alguma forma o autor conseguiu escrever
260 capítulos, o que pode parecer que a obra poderia ficar bastante arrastada (o que não posso negar que seja verdade), todavia, este mangá tem uma característica crucial que torna a experiência única:
Você não consegue parar de ler! Esse mangá simplesmente não para de surpreender a cada página ou capítulo, é tanta maluquice que parece que estou consumindo puro Brainrot. O nível que as coisas vão acontecendo vão crescendo como uma espiral de absurdos que nos prende em um transe hipnótico durante a história.
Como ficção cientifica eu diria que ele poderia muito bem se encaixar no subgênero Biopunk, por muitas das tecnologias apresentadas envolvem o controle da vida biológica, como a criação de animais completamente artificais, Body Horror com a manipulação da forma humana, como por exemplo humanos imortais completamente artificais usados como mercadoria e entretenimento. A história também me parece bastante inspirada por filmes de terror de ficção B dos anos 80.
A narrativa ao longo desses vários capítulos é dividída em "arcos", e algo interessante a se ressaltar é como as vezes o mangá parece uma coletânea de conceitos que poderiam servir como histórias separadas, mas unidas aqui por todo esse contexto bizarro do fim do mundo e de tudo ser possível de acontecer.
O personagem do George o Frango é com certeza o principal atrativo de toda a obra, ele exerce um papel de figura antagônica sobre a história, armado de um intelectuo além de qualquer outro ser vivo, capaz das mais diversas invenções malucas que desafiam qualquer lógica. Ele também acabou me lembrando um pouco a figura de Frankeinstein pelos dois serem criações humanas e desenvolvendo um ódio pela mesma, e algo interessante a se observar é que mesmo ele sendo um "monstro", o mangá nos leva a sentir empatia sua por sua figura, talvez remanecente das histórias de terror japonesas em que os seres não são nem completamente más ou boas. Sua principal motivação no começo da obra é causar o fim da raça humana e levar os animais extintos que ele mesmo criou a partir de genes coletados até o espaço por meio de uma nave, mas suas motivações acabariam mudando bastante ao decorrer da obra.
Após ele fugir da casa do pesquisador Shigeno, ele encontra um zoologico e se assusta que a maioria dos animais alí presentes são criações artificiais feitas para puro entrenimento, como verdadeiras aberrações da natureza, mas encontra também uma única galinha, que ele a leva junto de si e a chama de Lucy, modificando seus genes para ela ser capaz de falar.

Porém, dizer que George o Frango é o único personagem que acompanhamos seria bem errôneo, já que o mangá muda constantemente de foco pelos capítulos, com outros personagens que assumem uma posição de quase protagonistas.
Algo que não expliquei no começo da análise, é que o mangá começa apresentando a personagem Yokko, uma colegial que acaba ficando grávida de um cantor e está indo procurar uma vidente junto de outra colega, mas quando chegam lá a moça é possuída por alguma entidade e faz a primeira citação quanto ao futuro da humanidade: "Tudo acabará em
14 anos!"
Após isso, Yokko vai a uma clínica de aborto, mas quando desiste da ideia, é perseguida e dá a luz a seu filho, mas há algo de muito estranho nele, pois nasceu verde! Mas, não somente ele, como TODAS as crianças do mundo estão nascendo com a pele verde, devido a cloroplastos de plantas junto a elas, assim conectando esse caso com o outro personagem mais importante, o presidente Young dos Estados Unidos e seu filho, que acaba nascendo com um cabelo verde, e ele decida nomear a criança com um nome nada surpreendente, América, e o garoto tem uma estranha sensibilidade com as plantas, especialmente com um cacto chamado Bobby.

O Presidente Young acaba por optar em deixar o cabelo de América verde para servir de símbolo da nação, e eles desenvolvem uma vacina para as crianças, porém o filho de Yokko continua verde, e enquanto ela quase morria nos esgotos fugindo dos agentes da clínica, encontra uma porta ali e desmaia. Quando acorda, ela vê que foi salva por George o Frango e que ele decide retirar os cloroplastos do bebê, com Yokko decidindo chamar seu filho de Kiyora, que vai ser importante bem lá para frente, e George anuncia para ela que o fim da Terra viria em 14 anos, assim como a assombração da vidente disse. Ah, aliás tem esse aqui que considero um dos melhores diálogos já escritos na face da Terra:

Uma personagem que mais se aproximaria de um "vilão" seria a Grande Mestre Rose da economia, representando muito do egóismo humano que faz de tudo por seus próprios prazeres, sendo uma pessoa completamente obcecada com a própria aparência, se utilizando de produtos químicos para se manter jovem, com seus principal objetivo sendo alcançar a imortalidade.

Com tamanho poder ela pede para que George o Frango desenvolva o necessário para a raça humana alcançar a imortalidade, oferecendo fomentos para a construção da nave de George o Frango para levar os animais ao espaço. Também começam a acontecer muitos outros fenômenos estranho sobre a Terra, pois de repente TODAS as plantas do planeta perdem seu verde, representando um crise imensa para todos os líderes mundiais, que ao invés de revelarem esse fato para a população optam por distrai-la por meio de um acidente criado propositalmente e colocando pessoas reais em sério risco de vida para criarem uma notícia de sucesso e manter as pessoas presas em suas televisões.

A partir daqui acho que continuar dando um resumo do que acontece ficaria entendiante e seria um desserviço à obra, mas posso afirmar com certeza que o que já está ruim para a humanidade pode ficar pior, e MUITO.
Infelizmente, um dos pontos que eu poderia chamar de negativos é que George o Frango acaba por perder muito de sua relevância na reta final da história, o que me entristece um pouco pois ele é o mais carismático de longe de todo o elenco, mas o mangá nunca perde seu ritmo delirante, e tem um dos finais mais "
O que estou lendo pelo amor de Deus" que já pude ver.

Infelizmente Kazuo Umezo partiu com 88 anos em 2024, bem quando eu ainda estava lendo o mangá, o que é bem triste, mas seu legado deixado é inegável e ainda perdurara por muito tempo.
Conclusão
E esta foi minha
tentativa de escrever uma análise de Fourteen, e posso afirmar que foi uma interessante e bizarra leitura, me fazendo ficar deveras interessado nas obras do grande mestre Umezo. Mesmo que seja uma história escrachada em várias partes e talvez difícil de levar a sério, o que pode afastar muitos dela, não deixa de propor reflexões interessantes sobre o futuro da humanidade e em nossa relação com o planeta, nos avanços tecnológicos desenfreados e antiéticos, e na esperança nas novas gerações, representada nas crianças, apresentando no fim uma visão minamente otimista para conosco.
Decidir uma nota para esse mangá é meio difícil, em uma avaliação sincera daria por volta de 7 a 8, mas darei a nota:
George o Frango aura & hype moments/10
Agradeço de coração quem tenha lido esta review até o final! Fazia tempo que algo não me motivava a escrever tanto, espero que ocorra mais vezes neste ano.